quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O conto do César: surpreendente!

Amor porco

Aos catorze Viviane tinhas as mamas mais maduras do liceu. Aos quinze, não se falava doutra coisa, ela dava. À hora do intervalo, sentávamo-nos sempre no mesmo banco de cimento no pátio, um ponto de vista panorâmico dos três pisos do edifício. Podia vê-la a qualquer momento. Saiu da sala de rompante, o que quase causou que o coração me saltasse pela boca. Vinha em passos balançados pelos corredores. Interrompia os jogos por onde passava e gostava de saber do seu poder de perturbação. As minhas mãos começavam logo a tremer, as tripas eufóricas, de uma fonte interior emergiam-me suores, em torrentes, que me jorravam na fronte, nos sovacos, pelos ouvidos. César reparava o estado de pânico que eu passava de toda a vez que Viviane aparecia. César reparava em todos, em tudo, e qualquer coisa podia se transformar num gozo infernal na sua cabeça pequena de diabo. César fez o sinal aos colegas. Como um porco que sabe que vai morrer, petrificado, o meu corpo grande, gordo, pesado, não podia evitar o sacrifício que vinha chegando. Viviane saltou num abraço para cima de Fré, o seu preferido, depois distribuiu um beijinho musical a todos. Quando foi a minha vez, eu já estava submergido em suor. Ela aproximou-se, eu podia ter um ataque cardíaco a qualquer momento, ela aproximou-se, estava perto o meu beijinho quando senti uma mão nas costas. Antes que caísse, me esborrachasse nela a vazar águas, na fracção de segundos, entre as mãos nas minhas costas e a catástrofe a seguir, soube que nunca mais na vida Viviane iria olhar para a minha cara. César, Fré, Patcha, todos os meninos à volta, os rapazes que jogavam vólei, todos os pisos, todo edifício, em instantes, todos se riam de mim em perturbadoras gargalhadas. Viviane limpava o meu suor da sua cara, como quem limpava cocó.
Depois desapareci da terra, passou uma infinidade de tempo e voltei terminado o curso em Aeronáutica Civil na Rússia. Muita coisa morreu-me na memória, com se tivesse mudado tudo de lugar. Não conhecia mais ninguém ou sequer reconhecia muitas casas, entretanto transformadas em prédios de vidro e alumínio. O nosso antigo descampado de futebol foi tomado por um grande hotel. Nunca mais soube da turma e nunca mais quis saber. Passou um ano, tinha um bom emprego, não via ninguém do meu tempo, até àquele inesperado dia. César vinha do outro lado da rua. Era inconfundível a pequenez, o andar atrevido, o sorriso de diabo que ainda existe. Tanto tempo e nada tinha mudado. Ele me viu e estava espantado. Fez logo a cara que fazia quando, no liceu, me via e decidia que seria dia de me aterrorizar. Depois do desastre com Viviane, nunca mais saí para o pátio e em vez disso passava os dias dentro da sala de aula enterrado nos livros. Mesmo assim, como caçador implacável, César não me deixava em paz. Apesar do meu tamanho e do meu peso, era impotente contra as suas palavras e uma turma inteira que o seguia e as meninas todas que viviam ao pé dele. Nada podia fazer. Quando não desenhava uma caricatura minha, arranjava uma piada ou uma partida. Todos se divertiam a minha custa, comandados por César. Mas nada foi mais cruel que o que ela fez com Viviane. Correu o rumor que César tinha levado Viviane para cama. Morri uma metade. Eles andavam agarrados no pátio, na sala e em todo o lado. Eu morria todos os dias. Estava ele ali, dirigindo-se para mim, alegre, como se nunca tivesse acontecido coisa alguma. Apertou-me a mão sinceramente. Deu umas palmadas nos ombros, sempre a rir, sempre alegre, cordial, educado. Pude sorrir um pouco também e, sem sentir, sem mesmo saber porquê, perguntei:
- Viviane?
- Ah, Viviane! – César parou um pouco, tornando-se repentinamente sério. Um pouco gasta – disse.
Um pouco gasta? Um pouco gasta?? Fiquei a pensar. Depois de tudo, as únicas palavras que César consegue dizer sobre a Viviane é “gasta”?! Trocamos telefones.
- E onde ela está? Tive tempo de perguntar
- Ninguém sabe ao certo, mas dizem que costuma aparecer num bar em Monte Sossego.
Despedimo-nos. Não ouvi mais o resto. Um pouco gasta. Fiquei com a frase na cabeça por dias. Depois decidi que queria vê-la. “Um pouco gasta” soava a problema. Saía do trabalho e antes que anoitecesse, rumava Monte Sossego, perguntando a todos por Viviane: bonita, esbelta, loira, olhos assim – tentava imitar o circunflexo dos seus olhos – dentes perfeitos, sorriso bonito, etc. Mas ninguém se lembrava de uma tal descrição. Ninguém conhecia uma pessoa com o nome de “Viviane”. Andei assim tantos dias. Depois entrei num bar, para parar um pouco e recapitular os sítios por onde ainda não tinha ido. Tomando um café, numa mesa num canto, parecia impossível mas era ela, ou o que restava dela. Restava-lhe os ossos dos braços e da perna, a cabeça se aguentava por um espeto e não tinha mais olhos, só dois buracos. Era ela. Ninguém mais tem dedos dos pés assim perfeitos, mesmo que desfeitos em ossinhos. Era ela de certeza.
- Viviane! Chamei baixinho para não a assustar, mas mesmo assim ela se sobressaltou, se calhar porque ninguém a conhecia e ninguém a chamava pelo nome. Olhou-me do fundo dos buracos dos seus olhos, levantou-se atropelada para fugir, mas tropeçou em si própria, indo a cair. Segurei-lhe. Abraçou-me como se estivesse morrendo num mar. Chorou, inaudível. Afastou a cara para poder ver-me. Beijou-me a boca com a sua boca, um pedaço de tecido podre e seco. Deitou-se de novo nos meus ombros, chorou mais, inaudível. Não falava e talvez nem tivesse forças para tal. Paguei o café, saí com ela pendurada no ombro, aguardei um táxi e a levei para casa. Ela não se opunha, talvez porque não tivesse forças para nada. Ao entrar em casa, viu o meu colchão no chão e precipitou-se para cima dele, estatelando-se. Afofou-se nos lençóis, gemeu e dormiu imediatamente. Nessa noite deitei-me ao lado dela, lembrando do seu belo bumbum que desapareceu nas calças rotas que trazia. Cheirava a gente de rua. Tinha o cabelo em postas de sujidade, mas ainda assim mantinha o perfil de deusa e os belos pés. Dormiu quinze horas seguidas. Levantei-me no outro dia, fui trabalhar e, à hora do almoço voltei para casa e ainda ela dormia. Depois acordou lentamente, tinha dois olhos de novo, olhou-me, sorriu, sentou-se no colchão envergonhada. Comecei a preparar uma comida.
- Tens fome? Não respondeu. Toma um banho, tens ali água quente. Não respondeu. Viviane, não me interessa o que se passou contigo, deixa-me ajudar-te. Fica uns dias cá em casa. Não faz mal em te ter por cá uns dias. Terminei a comida. Tens fome? Não respondeu. Pus comida e fui me sentar ao lado dela. Tudo bem? Perguntei junto com uma mão no joelho dela. Ela rejeitou-me e afastou-se. Pedi desculpas, comi rápido e saí de casa. Tens tudo o que precisas. Fica à vontade. Viviane ficou em casa vários dias. Dormia metade do dia. Aos poucos tomou banho e comeu. E falou, finalmente:
- Obrigada, Zé!
Nesse dia, tive uma alegria a inundar-me, como o sol, o ar e o mar ao amanhecer. Aquela única palavra foi a música mais bonita que ouvi ao longo de quase todos os anos da minha vida. Viviane passou a sorrir, comer. Eu tinha uma incrível urgência em voltar para casa ir estar com ela. Começou fazer coisas em casa. Sentávamos à mesa e contava-lhe as minhas aventuras na Rússia. Ela ria. Beijou-me, de lábios molhados e doces. Beijou-me muito. Nunca senti nada tão quente a entrar dentro de mim. Amamo-nos. Aconteceu-me um milagre. Ia trabalhar e voltava para casa a correr e tomava-lhe de beijos imediatamente. Ficávamos horas deitados, amando. Com o tempo ela passou a tratar-me por “Tchuk” que eu adorava. Ela ficava em casa, arrumava tudo, fazia a comida. Eu tinha pressa em chegar em casa e sentar-me à mesa com Viviane.
Mês após mês, com os vencimentos, comprámos sofá, cama, televisão, plantas. Mudámo-nos de casa três vezes, até encontrar uma que agradasse a Viviane. Comprei-lhe roupa, bijutarias, viajámos. Em pouco tempo, Viviane era de novo uma linda mulher, a minha mulher. Saíamos e os homem olhavam-na descaradamente. Mês após mês, Viviane ficava em casa, fazia a manicure, o pedicure, perdia-se em revista de moda, via todas as novelas. Saíamos e os homens olhavam-na sempre descaradamente. Não podias vestir outra coisa? Irritei-me a certa altura. Ela não gostou da reprimenda. Discutimos. Passamos a discutir por tudo. Chamava-me de estúpido e eu chamava-lhe de cabra. Engrossamos as discussões e culminou com ela a chamar-me de porco. Um raio partiu-me ao meio. Nunca pude esquecer o seu gesto a limpar o meu suor da sua cara como quem limpava cocó. Atravessei-lhe uma palmada na cara com tanta força que ela teve três dias de pescoço torto. Chorou uma ribeira. Chamou-me de tudo a gritar. Gritava de profunda dor. Mortifiquei-me de arrependimento.
Nos dias que se passaram, Viviane fez-se uma pedra de gelo. Não olhava mais para mim. Fazia tudo como dantes, comida, arrumação da casa, mas não olhava mais para mim. Começou a sair sozinha. Chegava tarde. Eu não podia dormir enquanto ela não chegasse. Andava irritado, quase que a tornava a bater, o que ela percebeu e olhou para mim com um terrível olhar inexplicado. Saia todos os dias. Não me olhava. Comíamos as refeições em sepulcral silêncio. Cada um do seu lado. Só o tilintar das talheres e dos pratos.
- Tou grávida, Zé.
- Meu filho? – explodi – grávida do meu filho Viviane?
Pulei da mesa, agarrei-lhe e beijei-lhe a boca apática. Não me importava com nada. Ia ter um filho. Disse a todos no trabalho. Paguei cerveja a todos. Ia ter um filho!
A barriga começou a crescer. Viviane continuava a não me falar, embora andasse pelos cantos a cantar e a acariciar a barriga. A barriga cresceu. Fui a todas as consultas. Passei a fazer todo o resto dentro de casa. Levava Viviane a andar. Não me falava mas permitia que eu a levasse abraçada. Tinha ansiedade em ver o meu filho nascer, o que aconteceu num Domingo. Quando vi aquele ser, do tamanho de um rato, não me contive em lágrimas. Era o homem mais feliz do mundo. A casa encheu-se de gente para o sétimo dia após o nascimento, o dia de guarda-cabeça. Comprei toneladas de cerveja, vinho, mandei cozinhar para cem pessoas, havia de tudo. Cumprimentava a todos, bebia, embebedava-me. Quando se aproximou a meia-noite, o povo entrou-me para dentro do quarto, Viviane ainda cambaleante, levantou-se, pegou o bebé ao colo e ficamos no meio de uma grande roda, com direito a violão. Abracei a minha mulher, balançava para os lados, bêbedo mais que alguma vez na vida. Ergui a taça de vinho no ar.
- Não importa absolutamente nada! O filho é meu filho!
César Schofield Cardoso

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O nosso Tarantino tem destas surpresas...

A COBRANÇA

Capítulo 1 – O telefonema

Sim!!! Sim!!! Sim!!! Poderia ter acontecido a qualquer um. O esquecimento é humano. Naquele dia sentiu que o chefe lhe falara de uma forma estranha. Nem sequer contou a piada do costume. Sim! Sim!!! Sim!!! O Chefe dizia sempre uma piada ao telefone… OK!!! OK! As piadas eram fracas… mas o chefe contava-as como se fossem as melhores do mundo. Mas passemos à História… Nem uma piada!!!! Ainda por cima, pelo tom da voz, parecia que lhe tinham ido a algum sítio e não lhe pagaram.
A sua cabeça estava a tentar perceber o que se estava a passar que saiu tão depressa que se esqueceu da carteira e das chaves. Sempre a mesma coisa. Esqueço-me sempre destas coisas. Mas hoje é que não podia ter acontecido… Logo hoje que o chefe está mais que chateado. Se calhar a mulher não quis nada com ele.... Desceu as escadas de uma só vez… Em 30 segundos desceu pelas escadas os 4 andares do prédio onde morava. Talvez tenha descoberto o que se passara há três anos… Não… não me parece… Não passou de uma bem dada…. OK… OK… deve ser mesmo outra coisa. Tentou afastar os seus pensamentos Saí de casa e reparei que teria ir a pé, levaria cerca de uma hora a chegar ao destino ou apanhava o autocarro que poderia demorar muito mais.- Grandessíssima foda. Estou fodido.
Capítulo 2 – O Atraso

O Gajo está mesmo fodido! Nunca vi o chefe tão chateado! Ainda por cima o gajo está a demorar muito tempo a chegar. Já se passaram duas horas e nada. Será que o Gajo deu à Soleta? Hiiiiiiii!!! Granda chatice! Ainda Vai sobrar para mim. O Chefe aproximava-se. Tinha aquele ar de penico mal limpo. Diria mais… de sanita acabadinha de ser usada por um diarreico. Mas um diarreico com uma diarreia em último grau. Daquelas que salpicam tudo!
- Vist’o Cabráo??? Foda-se. Olhou para mim com aquele ar de que me ia tramar naquele momento. E assim foi. Parece que tenho um servicinho para Ti.
Logo vi… tinha mesmo que sobrar para mim. Afinal o que é que aquele gajo fez hoje??? Merda… tantos gajos a trabalhar para o chefe teve de me calhar este broche. Estava mesmo, mesmo a pensar que desculpa ia dar para não ter que fazer o servicinho quando, com se tratasse de pura magia, o Gajo aparece a correr. Estava todo suadinho… parecia que alguém lhe tinha mijado em cima. Olhou para mim com ar de paneleiro… o gajo estava à rasca. O Chefe??? Perguntou-me! O Chefe olhava-o de braços cruzados a uma distância de uns 7 metros. Armany dirigiu-se para o Chefe e parou a uns 30 centímetros deste.. Este apenas indicou a porta do escritório e lá foram os dois. Antes o chefe dissera para esquecer momentaneamente o seu mandado. Chiça penico… acho é que vou beber um granda café!

Capítulo 3 – O Problema

O chefe andava de um lado para o outro… parecia mesmo uma barata tonta… só faltava mesmo as antenas. Naquele momento pensei que talvez tivesse algo a ver com a gaja… tinha de negar tudo… tinha mesmo de negar tudo. Ainda não sabia como… mas sabia que haveria de se sair bem daquilo tudo! O mais importante era safar-se. Ainda não sabia como… mas eis que o chefe pára e olha para mim! Sorri!!! Pela primeira vez sorri. Foi apenas uma questão de segundos. Tosse!!! Um charuto acende-se na boca. Como é que correu a cobrança de sexta-feira?... Ufa… Foi um momento de alívio. Maior do que quando temos prisão de ventre e não conseguimos defecar durante dias inteiro e num dado momento conseguimos. Olarila… O Chefe está a falar da cobrança de Sexta-Feira??? – Olhei para o chefe de frente. Nos Olhos. Talvez tenha sido um dos momentos mais perfeitos da sua carreira de cobrador de dividas difíceis. Diria mesmo que talvez tenha sido 99,99% perfeita. Cheguei a casa do caloteiro e em trinta minutos tinha o dinheiro e limpara a sociedade de mais um caloteiro. Derretido literalmente. Nunca mais…

Capítulo 4 – A Cobrança

Estava a acabar de beber o café quando me bateram à porta. No inicio achei estranho tocarem-me à campainha aquela hora. Por momentos pensei talvez fossem os miúdos a brincar… Mas não!!! Lá me voltaram a bater à porta. O que antes era um toque de campainha de rua passou a ser um som seco de mão contra a madeira da porta. Um soco seco sobre a madeira da fraca porta. Disse que não queria comprar nada. Que se fossem embora. Naquele momento estava a ordenar o dinheiro para pagar a prestação da minha divida para com o gajo… depois desta só faltava mais uma… Ok… estava atrasado um dia… Nada que fosse problemático. Mais uma vez bateram à porta… desta vez batiam com mais força… Talvez fossem os cobradores de dívidas… Corri para vestir a camisa quando a porta entrou literalmente toda pelo meu apartamento adentro. Por um pouco não me esborrachava contra a parede. A mesa onde estava poisada a massaroca toda voou, espalhando-a pela sala.
Entrou um gajo todo suado, OK!!! Vestido de Armani… Mas todo suado… parecia quelhe tinham mijado em cima! Vinha acompanhado de dois pretos vestidos de fatos macaco!
O gajo Armani que deveria ser o chefe gritou… Acho que sim!!!!… gritou… Estás fodidinho da silva!!! Vais levar tanto nesse cú que não vais andar durante uns anos valentes!!! Vais pagar caro. Olhou para o chão e disse aos acompanhantes… Contem a massa. O Armani deu-me uma coronhada na cabeça e ficou tudo preto.
Luz… Primeiro via aluz… Depois comecei a ter noção das cores… O Vermelho escorria pelos meus olhos… Acordei sentado numa das cadeiras e apontado à minha testa estava um revolver, que se disparasse faria um buraco que permitiria a qualquer um ver o que se passava atrás de mim. No inicio pensei que não passava de um mal entendido… Caramba só passara um dia! Estava descansado pois tinha o dinheiro suficiente. Não havia precisão para uma acção daquelas. Eu sei que estou atrasado. Mas caramba. Mal acabaram de contar o dinheiro um dos pretos falou ao ouvido do gajo Armani. O Gajo Armani suado olhou para mim com um ar de gozo total. Falta dinheiro… neguei… contem outra vez… talvez algum dinheiro tenha voado. A janela está aberta e… naquele momento pareceu-me uma brincadeira estúpida… uma partida de muito mau gosto… Então o Gajo está feliz por faltar dinheiro???
Porra… mal sabia que o meu tempo se esgotara naquele momento… porque é que nunca tinha apalpado a vizinha do lado… era só uma vez… OK!!! o meu prazo ditado pelo criador chegara ao fim. Tudo o que vos contaram ou leram sobre as torturas no Tarrafal, face ao que eu passei, parecerão histórias de adormecer. Acabei da pior maneira… sumi. Nada… absolutamente nada sobrou de mim.

Capítulo 5 – Não aguentou.

Chefe… Foi mesmo necessário rebentar com a porta… Batemos duas vezes e o gajo nada!!! De certeza que o cabraão de merda se preparava para fugir. Apanhámos o o filho da puta a contar o dinheiro. Como não tinha todo o paneleiro julgava que podia dar à soleta!!!… enganou-se… pagou… e pagou todo o santo dinheirinho aos poucos…foi perdendo partes do seu corpo aos poucos…. uma coisa é certa… o cabraão não se desarmou… não deu á língua…. Naquele momento surgiu-me um trocadilho… daqueles que o chefe gosta… Heheheh… deu a língua… parei e olhei para o chefe que olhava para mim com a mesma cara que tinha quando eu cheguei… mau Maria… não riu??? Porra!! Será??? Puta!!! Mas continuei a contar… O Caralho do Gajo foi valente… mesmo depois de não ter os dedos das mãos, dos pés, de termos tostado as duas bochechas na chapa do seu fogão… o filho da puta … mal se percebiam as palavras do gajo… também sem língua é difícil…mas o paneleiro ainda resistiu… dizia que o dinheiro estava todo e que era apenas um dia de atrazo… que os juros estavam lá… o gajo ou era estúpido e não sabia fazer contas ou era um mentiroso da gaita e que se enganava a ele próprio. Dei-lhe uma cabeçada na boca e o o cabraão de merda ficou sem nariz… Enfim… aquilo pelo qual o gajo passou, só uma barata, que teimosamente acabou por ficar a assistir a tudo, os meus dois homens que fizeram o servicinho comigo e eu é que tivemos o privilégio de ser os actuantes e testemunhas ao mesmo tempo. Aquele paneleiro de merda nunca mais vai enganar mais ninguém… é que se o paneleiro de merda falasse a verdade… talvez só tivesse perdido os dedos… mas não… armado em totó e a mentir com todos os dentes que tinha… hihihi o cabrão ficou sem nenhum… os que sobraram da cabeçada arranquei-os com um alicate que me acompanha sempre. O Gajo ainda por cima começou a vacilar… mas teimava que não!!! Que tinha o dinheiro todo… que não devia mais…. Enfim … de repente começou a chorar que nem uma menina… maricas!!!… granda maricas!!! … O Chefe continuava com aquela cara de sanita… Já não sabia mais o que contar. Bem resumindo… não é que o gajo o gajo dá o último suspiro… Sim chefe… bateu literalmente as botas…deu um ai de merda e pimba… parou de respirar… se calhar deveria fazer-lhe respiração boca a boca… mas chefe o gajos nem língua tinha… era nojento… ainda lhe bati no peito… mas sinceramente nunca tive jeito para médico… o sangue faz-me impressão… ver gajos a sofrer não é comigo… mas o gajo foi-se…Fiquei a olhar para o meus homens e disse… vamos meter o gajo nos recipientes com acido sulfúrico… e lá fizemos o servicinho… limpámos a casa toda e não deixamos vestígios de nada… Eu até matei a barata…
O Chefe afastou a cadeira para trás. Levantou-se e zás deu-me um murro no nariz. Só senti a dor quando já sangrava abundantemente. Ainda disse oh Chefe e já estava a receber outro murro no meu penduricalho… Ok!!! aquele doeu… doeu como a merda…

Capítulo 6 – O Engano.

O chefe estava mesmo chateado com o Armani Guy… parece que o chefe julga que o gajo ficou com metade do dinheiro e deixou fugir o outro. Como é que não deixou nenhum vestígio??? O chefe estava vermelho…. Estava tão inchado que parecia que ia rebentar… o que é que esse paneleiro fazia na minha cama??? Armany encolheu os ombros… a resposta certa veio-me à cabeça.. o que todos os homens da empresa já o fizeram, incluindo ele…. Armany estava preso a uma cadeira… parecia um lombo no forno… com a corda enrolada à volta dele. Mentiroso! o Chefe olhava para ele… quanto então mataste o gajo… e o fantasma dele apareceu na minha cama… e não bastasse fodia-a… Quer dizer!!! lá foste ao Bairro Alto e Rua da Rosa, no 4 – 4º Andar e dizes que limpaste o gajo da terra e o Gajo aparece lá em casa…Granda maluco… O Chefe bufava. Do Armany saiam por todos os poro jorros de suor. Nesse momento Armany levantou a cara… o chefe disse nº 4??? O Chefe disse Nº4. Não era 44??? Carolhos me fodam se não fui ao 44!!! Mas… Chefe… está reolvido… enganei-me no gajo… mas porque é que o gajo não disse que não era ele??? Ó Chefe!!! o gajo era maluco… podia ao menos ter dito…
Tiro de pistola… Silêncio…
A voz do Chefe…limpem-me esta merda.


João Paradela, pai da Mafalda

O quem é quem da 1ª edição do Workshop de Escrita Criativa: genial!

A Tecelã
A tecelã decidira, naquele fim-de-semana, que teria a tapeçaria pronta em duas semanas. A cada cinco dias úteis, como manda a burocracia das coisas, metade da tapeçaria estaria pronta. A obra tinha de aparentar um resultado contemporâneo. Não que a costureira fosse adversa ao toque da tradição: pelo contrário, sabia que o que existe actualmente não é senão um aglomerado de actualizações e interpretações do tradicional. No entanto, ela era uma mestre. Uma mestre das várias facetas da contemporaneidade. Mas a isso…já lá vamos.
Começa por alinhavar e separar, cuidadosamente, os utensílios da sua caixa de Pandora. Precisa de, exactamente, onze ferramentas: um espaço amplo, um modelo visual, uma folha de papel para esboçar o desenho, um tear, dedal, fita métrica, uma agulha grossa, uma agulha fina, um pente, vários novelos de lã em cores criteriosamente seleccionadas, linha fina para os remates, uma tesoura e, por fim, como ferramenta não material, precisa da crítica do público que, como sempre, nem sempre é de opinião fundamentada.
A tecelã começa a urdir a sua teia de aranha, literalmente. Tem como árdua tarefa, a de ordenar cromaticamente as cores dos vários novelos de lã. Ela queria produzir um tapete como o do filme Gabbeh. Simples, mas com várias histórias encaixadas. Mas a isso…já lá vamos.
No início recorreu ao apoio do modelo visual: é que todo o mestre tem um mestre que receia, que idolatra, por cima de quem quer passar (em alguns casos, por baixo) ou a que muito simplesmente se quer igualar. Mas esta mestre apenas quer desdobrar o modelo do seu mestre em várias singularidades que descobre só. O espaço amplo, a primeira ferramenta, está em osmose com ela: tem papéis, rolos de jornal, um lugar alto de onde projecta o modelo visual, tem a candura dos seus olhos, o cheiro a antigo remodelado; cheira a lã, a papel meticulosamente cortado.
Dá início. O seu tear parece desconjuntado, apesar da simetria das partes. Aliás, esta simetria é apenas uma ilusão de óptica. É de madeira forte, castanho-escura, com algumas lascas que rapidamente poderão incendiar um dedo menos avisado. Já prevenida para o efeito, a tecelã mune-se do dedal, pequenino, redondo, de prata. Um achado da memória, deixado pelo único homem que lhe fadou a sorte em saudade dourada, com o remate final de um nó de marinheiro. A fita métrica, muito precisa, com os números de trás para a frente ou da frente para trás – subjectiva, portanto, dependendo do ponto de vista ou de quem sobre ela se debruce voyeuristicamente. É o suporte discreto de qualquer tecelã: remata as medidas da tapeçaria – the best for last.
As agulhas são as ferramentas que mais trabalho dão à nossa tecelã. São duas doidas antónimas, que dão os nós invertendo os pontos. A agulha mais grossa, a que mais intimamente se relaciona com o dedal, tem muita noção da sua importância no processo. Sabe que sobressai, que deve sobressair por ser indispensável…no entanto, tal como a cigarra se esquece do inverno (mas só nas fábulas em que se dá mal), assim a agulha grossa se esquece de que pode ser substituída, por outra agulha grossa e muito discreta. Ainda assim, esta agulha sabe (e tem consciência disso) de que sem ela, a tapeçaria não anda para a frente. A agulha mais fina, é a formiga desta fábula muda (a essa, coitada, o La Fontaine deixou-lhe um testamento de eterno trabalho). A não esquecer: apesar de ser a mais pequena é a que mais pica, ironicamente. Pode fazer um pequenino estrago à superfície da pele, para se saber que ela está lá, que está para o que for preciso. Os novelos de lã lembram cabelos muito negros, muito brilhantes, que encimam uma torre de marfim. Os reflexos da luz neste novelo desdobram-se em várias cores, as cores que a tecelã escolheu.
Já a linha fina é discreta, de cor indefinida, mas que muito se identifica com a agulha fina, as grandes cúmplices desta tarefa. É distinta pela finura, mas forte nos remates. Surge, por fim, a tesoura, sempre no discreto corte e costura, de língua afiada, mas indubitavelmente indispensável. A melhor amiga das Parcas, tem sempre a palavra final.
Já o pente tem uma função ingrata, mas ainda assim, fora do vulgar: ele escova os cabelos longos de uma sereia colectiva que são os novelos de lã. De vez em quando põe ordem na casa, morde a teia do tear com força e determinação, com ar de quem quer lei e ordem. Engasga-se algumas vezes, mas depois de uma enérgica cuspidela, retoma a compostura. É fiel.
Chega de descrição que está na altura de começar a narração. O tapete começa, lentamente, a ganhar a forma monotonamente quadrada. Linha acima, linha abaixo, o azul e o preto em diálogo. A agulha grossa luta teimosamente com o dedo da tecelã que cansada, por vezes , da insistência da agulha teimosa muitas vezes apressada no toque, resolve fazer o que tem de ser feito à mão, sem cerimónia, como quem come marisco com as mãos e lambe os dedos, um a um, diante de uma qualquer individualidade importantemente inútil. Termina as primeiras linhas de um desenho que oscila entre o impressionismo e o expressionismo. Chama pela impertinente agulha mínima, que lança umas gargalhadas agudas por cima dos novelos de sereia. O pente entra a cada fila de lã ordenada, queixa-se do trabalho mas lá vai prosseguindo, aos tropeções loucos, cospe, engasga-se mas lá vai penteandando (desculpe-me o tecelão Mia Couto, ele é que gosta destes inventarismos). A linha fina vai terminando, é a pausa deliciosa nesta grande narração de lã. Nova fileira, novas ideias. Fernando Pessoa vai piscando o olho, divertido, afagando o cabelo da tecelã e segredando-lhe ao ouvido que «Deus quer, a obra nasce e a tecelã bem pode ir urdindo…ah, pois é». O que é certo é que a obra nasce mesmo, a ponto e vírgula de agulha, a vírgula de novelo e a ponto final que sabe a parágrafo. Nova fileira, novo parágrafo. A primeira semana termina, a ampulheta dita severamente o tempo, em compasso de espera com a tesoura.
Nesta tapeçaria nada funciona ao acaso. Ela está a tornar-se num todo absolutamente indivisível. Até os cheiros e os sabores, em sugestão, contribuem. O trinco numa sandes que a ansiedade não deixa terminar, deixa no ar um cheiro suspenso a pão com manteiga. Ao fundo da sala, a Mãos-de-Fada fuma, mais um instrumento que dança nos dedos da tecelã, esvaindo-se num fumo que, para a tecelã, é o arco-íris das cores dos novelos de lã. O cheiro a cigarro e uma migalha do tamanho do saco roto de uma formiga transformam esta tapeçaria, agora a metade, num aglomerado polifónico de fios, cores, cheiros e sabores. A tecelã descansa.
No início da segunda semana, todos os utensílios a postos, surge o conflito. A tecelã, ainda de olhos semi-abertos de ternura, apalpa a sua tapeçaria. Percorre-a delicadamente com os dedos. Não acredita nas fissuras que nela encontra. Descerra os olhos definitivamente. Agora observe-se: «eu só cortei o que devia» Não é, possível, pente, o que sentiste da última vez que escovaste os fios. Não se vê logo? A tapeçaria estava a meio, não se lembra tecelã? A agulha fina solta uma irritante gargalhada: fio fino, fio grosso….medita. Agulha grande, tu melhor que ninguém, conheces os dedos da Mãos-de-Fada – que fizeste? Ironicamente, a agulha fina pensa: «As aparências enganam…agulha grossa só faz mossa». Agulha grande: «sei o que fiz, a minha consciência acusadora o diz». Clímax: a tesoura, impune, conhece os seus traços. Tecelã: olha o que te fez a opinião pública…Corte e costura, a tua tapeçaria está desfeita. Desfeita em lágrimas está a tecelã…«Meu Deus, que fiz eu?!». Stranger than fiction: parece que o narrador omnisciente desta história, armado em demiurgo, com um gole de uísque da opinião pública, na noite de descanso da tecelã, cortou-lhe a tapeçaria toda. Divertiu-se, às escondidas, a destrançar a colcha de Penélope. A omnisciência das coisas: ver sem ser visto, acusar sem ser acusado, ser juiz soberano da narração. A omnisciência não merece a nossa confiança.
Depois do primeiro impacto, a tecelã heterodiegética toma uma decisão: a autora sou eu. Quem, como, porquê, quando, porque…a impressão das coisas está na sua mão. O seu tapete é expressionista, percebeu, opinião pública?! Quem manda aqui é o autor e o autor sou eu. Nova tapeçaria…«Tear cineasta, pronto?» Tear cineasta: - Dedal de prata, trepa-lhe dedo acima. Dedal de prata heróico: - Fita métrica, desenrola essa timidez de caracol e vamos às novas medidas. Fita métrica de pele fina: - Agulha grossa, entra já a contra-relógio. Agulha grossa, programadora de sonhos : Agulha fina, time is Money – pega na caneta. - Agulha fina de imaginação fertilizada: é para já, ponto parágrafo, a cada linha que escreveres eu remato com nó de marinheiro, pente mágico escova! – Pente, palhaço feliz da vida: agora é a hora da verdade – vamos esmagar o inimigo público, novelos de lã em adjectivos, desenrolem as cores. Novelos de lã em sonhos de timidez: que os meus cabelos se derramem nas cores da tapeçaria de Penélope, linha fina, estás comigo? Linha fina, de sorriso límpido: estarei contigo em simbiose, até que a tesoura nos separe. Tesoura, a sereia da polifonia: terei a última palavra. Neste momento, Fernando Pessoa, agora tenso, não pisca o olho à tecelã: aperta as mãos de Caeiro, Campos e Reis…precisa de uma força de horóscopo para mostrar à tecelã que esta, sem saber, prepara uma Ode Triunfal. A tapeçaria desenrola o seu olhar em frente à opinião pública: numa mescla de descrições, narrações e narratários loucos (entre eles Sá-Carneiro, o louco são), de heterodiegeses indigestas e homodiegeses esquizofrénicas, é o frémito da loucura, o vómito da criação. A tecelã urde uma tapeçaria única, feita de ventos e marés, de correntes e contra-correntes. Foi o Salto. O Salto da criação que a projectou. No sábado do julgamento da opinião pública, a tecelã vence: desenrola uma tapeçaria mágica, que não voa como o tapete de Aladino, mas que atravessa olhares ávidos de páginas escritas, que incomoda, que traz o pânico. Ela é a mensageira da paz, cuja tapeçaria traz a guerra. A Guerra Fria interminável do autor e do leitor: o autor que aprisiona, o leitor que clama pela sua liberdade de interpretação. É a metáfora da criação. A tecelã dá as mãos a Álvaro de Campos, e finda a obra, ambos exclamam:
À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!


Deve dizer-se, em abono da verdade, que a tecelã foi pouco descrita. Chamámo-la inicialmente, de a mestre da contemporaneidade. Como toda a boa tecelã, ela começou por urdir a sua teia. Jorge Palma tem uma balada que se chama «Essa miúda». Como já não temos palavras para a descrever, deixamos que seja Jorge Palma a fazê-lo: “[essa miúda]faz-te acreditar que o sol é um presente que a aurora traz principalmente para ti”, não esquecendo que “e enquanto inventas passos novos, ela vai arquitectando uma teia para te aconchegar”. Cuidado, portanto, com esta tecelã…
E já agora: não fomos nós, narrador omnisciente, quem lhe cortou a tapeçaria. Deixamos-lhe, a si, caro leitor, o prazer dessa descoberta. Criative-se!

Flávia Ba

O conto da nossa querida Alice


São muitas crianças.Vivem com os pais e a avó numa casa do campo, enorme, cheia de compartimentos. A casa fica completamente isolada do resto da localidade, como que plantada no meio do pequeno vale circundado de montanhas irregulares. Ela fora desenhada de forma simétrica e simetricamente implantada naquele alto da colina. Uma sala grande ao meio, do lado direito com dois quartos enormes e do esquerdo um menor, todas em linha, tipo comboio. À entrada da sala uma enorme varanda, abarca todo o comprimento da sala e dos três quartos e é fechada completamente por persianas de madeira que lhe emprestam uma magia sobretudo ao por do sol, quando os raios se enfiam entre as gretas e desenham arabescos de cor nas paredes interiores que reflectem nos vidros dos quadros nela dependurados, luzes multicolores que parecem de um outro mundo. Do lado de fora, de cada lado de um corredor grande que dá acesso àquela varanda, dois grandes canteiros, cada um com uma árvore frondosa ao meio, com um pequeno círculo todo trabalhado com motivos em cimento. O chão dos canteiros é calcetado e em toda a sua volta pequenas plantas dão um encanto especial ao conjunto. Na casa, à volta, dentro e fora dela há espaço, muito espaço que é o mundo fantástico para todas as brincadeiras e invenções daquelas crianças. Nas brincadeiras de rodas, de esconde-esconde, de corridas, de circo e até de teatro fazem-se descobertas de cavernas, de pequenos esconderijos, de novas modalidades para os saltos à tarzan na selva, de desempenho de bruxas, piratas, ladrões, fadas, barqueiros, caçadores, príncipes e princesas num imaginário espectacular que nem o escuro, quando apertava à tardinha as fazia parar de brincar, ao contrário, tornava as brincadeiras mais estimulantes e desafiadoras.
Verónica era a terceira dos oito filhos daquele casal. Para além dos filhos moravam também na casa mais quatro primos. Ela tinha então 5 anos e gostava quando as irmãs e os primos permitiam-lhe tomar parte naquelas brincadeiras, sobretudo quando não faziam de conta e que ela se esforçava e acabava por agarrar de facto o “ladrão”. Muitas vezes, à tardinha, quando se afastava um pouco mais do aconchego das paredes da casa e das suas árvores amigas, tremia de medo das sombras dos arbustos e dos picos dos pequenos rochedos mas queria provar a sua bravura e não ser excluída nos folguedos.
Mas havia um bom tempo que aquelas brincadeiras haviam cessado. Não porque quisessem, elas foram “proibidas” sobretudo à tardinha e principalmente junto àquela grande varanda mágica que dava para o grande quarto. Não podiam dar risadas sonoras, não podiam correr e muito menos gritar porque faziam muito barulho que era todo sentido no quarto onde o pai estava deitado havia dias, meses. Que criança poderia brincar calada, mormente na vastidão daquele espaço? Quedavam-se, muitas vezes querendo penetrar no quarto e ver o pai, ao menos poder dar-lhe um beijo, mas isso era um grande sacrilégio e lhes fora completamente negado. O médico impedira-o de sair dele e as crianças, sobretudo as crianças, de entrar nele. Ele deveria comer no quarto e tudo o que era dele fora separado do resto. Não deveria haver nenhum contacto.
Era um dia 31 de Dezembro, de há muitos anos. Desde manhã havia um sussurro esquisito por toda a casa. Já se habituaram àquele ar de mistério que perpassava no ambiente havia uns meses mas naquela manhã havia qualquer coisa no ar, no vai - vem das pessoas adultas no abrir e fechar da porta do quarto, Ninguém pensava em explicar nada e também como poderiam?
À tardinha, como faziam agora mais do que nunca, estavam sentadas na varanda olhando o céu e tentando distrair-se com o movimentos dos carros que circulavam naquela estrada que passava lá no alto, sobretudo no dobrar da grande curva, que sempre lhes dava a impressão que o carro ia cair e rolar naquela ribanceira. E nesse contemplar, discutiam e perguntavam-se entre elas se não seria esse rolar a origem do nome da casa…os mais velhos diziam sempre com ares de sábios: Não, o nosso avô tinha uma pedreira aqui. A razão do nome era essa…
Estranhavam não verem mais na casa, aquele reboliço de antes, de pessoas chegando para passar o dia, almoçar, jantar, “assaltar”, tudo isso parara. E então, tratando-se do fim do ano, ansiavam sentir como nos anos anteriores, aquele dia, e especulavam sentir a sua derradeira saída para preverem e sentirem como seria o Novo Ano. Naquele contemplar, nem se deram pelo carro que descia a rampa em direcção à casa. Era uma camioneta cheia de pessoas que as apanhara quase de surpresa. E surpresas mais ainda ficaram com o ar daquelas pessoas, de ar contristado, todas vestidas de negro, um negro forrado, falando em surdina para as crianças não as ouvirem, mas esforçando-se para que elas sentissem a sua tristeza, a sua pena, repetindo palavras de conforto: coitadinhas, tantas criancinhas e órfãs…como irão ficar… coitadinhas… na cidade, hoje não se fala de outra coisa, que será delas? …
O grupo entrou na sala grande e ouvia-se choro contido, gente falando baixinho, outras choramingando, num sussurro que pressagiava algo pior. Até o cão parecia ressentir daquele ambiente. Trazia nas orelhas descaídas um interrogar e pressentia-se-lhe na expressão molhada dos olhos uma perda como que iminente.
Verónica esteve sempre atenta àquela movimentação mas não entendera nada. Passara todo o dia muito quieta. Sentada, com o olhar parado, num canto da varanda, lembra-se de ter escutado num sussurro mais aberto das conversas das empregadas, que à noite não haveria ceia. A avó ordenara apenas a confecção de um cuscus para os meninos. Está também entre os irmãos na contemplação da estrada mas sempre curiosa por entender o mistério que paira no ambiente. Procurara ouvir ruídos provindos do quarto e nada. Num momento vê a mãe sair do quarto, fugir para o quintal e segue-a devagarinho sem que ela a note. Vê que a mãe se ajoelha no meio do quintal e reza chorando e soluçando: ela escuta palavras que não entende mas que por alguma razão fixou na sua cabecinha de criança. Entende no rol das palavras da mãe algumas que a deixa em alvoroço: Deus, não me leve o meu marido, por favor faz com que ele viva, mesmo que depois não me queira mais…Ao ouvir essas palavras cuja dimensão não entende Verónica apenas compreende que o pai vai morrer e ela não vai querer que isso aconteça.
Sem que ninguém dê por nada, ela corre de mansinho e sôfrega entra no quarto do pai. Ele está só. Está de olhos fechados e mal se sente a sua respiração. Pega-lhe na mão e aperta-a. O frio das mãos do pai percorre-lhe todo o corpo e com elas apertadas, beija-as e encosta-as ao peito e fala, como se estivesse sozinha: papá, escuta-me. Tu não vais morrer porque eu sei que não queres que fiquemos sem ti. Esse doutor não sabe nada, como é possível que te priva do amor dos teus filhos? Precisas mas é deles, do seu amor, da sua amizade, senti-los junto a ti. Tens mas é de ficar junto a nós, de te tratar e viver. O quarto fechado, esse escuro e essa cama vão matar-te. Ela repete tudo isso de um fôlego, num ápice, chorando e soluçando e não se dá conta que o pai abrira os olhos e chora de mansinho com ela, abraçando-a.
Na sala grande as pessoas sentadas todas à volta, falam baixinho e esperam o momento…Nisso, vinda do quarto escutam uma voz, que parecia vir do outro mundo: Vieram ver se morri? E de súbito, como que num passo de mágica, aparece desenhada e recortada a figura de fibra daquele homem, com o seu sorriso rasgado, aquele sorriso que marcara sempre a sua personalidade.
Todos se quedam estupefactos não querendo acreditar no que os seus olhos vêem. Abraçam-no apertando-o, passando-o de um braço para outro, apalpando-o, remirando-o, sentindo-o, voltando a abraça-lo. Quase que o esmagam. Já nem se lembram dos avisos do médico. Festeja-se e pronto. É o renascimento. Não se sabe vindo de onde, nem como, aparecem na mesa pratos com bolos, galinha, bacalhau, peru, vinho, e festeja-se o Ano Novo. E vão chegando mais viaturas e mais gente e mais comida e mais festa… A notícia espalhara-se: Era a ressurreição. Nesse dia permitiu-se que as crianças participassem até tarde… e por muito tempo essas crianças se lembraram daquele dia 31 de Dezembro das suas vidas.
Dois dias depois ele levanta-se cedinho e vai até à cidade. Regressa a casa e anuncia que vai para a metrópole. Vai tratar-se no Caramulo. Tudo é organizado num ápice. Cerca de ano e meio mais tarde os médicos acham que ele não se cura longe da família. A família ou a mulher precisa estar junto dele. A mulher vai para junto dele e leva a bebé que trazia ao colo. Os meninos ficam com a avó mas esta pede que a Verónica fique longe pois é muito irrequieta. Vão viver na cidade, em casa da irmã da avó e a Verónica fica em casa da tia, irmã da mãe, que só tem dois filhos e gosta que esta os anime com as suas brincadeiras, a sua hilaridade e a sua alegria.
No Caramulo os médicos depressa se dão conta do seu optimismo e testam nele um tratamento moderno que é um sucesso. Esse homem é também utilizado para aliciar os outros doentes a seguirem aquele tipo de tratamento, uma inovação e uma nova esperança.
O tempo passa e entretanto os meninos recebem a notícia das melhoras e da cura do pai e da sua breve chegada, dependendo da disponibilidade dos barcos. Aguardam assim cada vez mais com maior impaciência o regresso dos pais. Todas as semanas vão aos correios ver se os nomes deles constam na lista dos passageiros provenientes de Lisboa, no quadro preto dependurado nas paredes. Fazem isso tanto que se desesperam de tanta demora. Na última tentativa, decidem ir buscar a Verónica pois esta lhes tinha dito que sonhara com os pais e que por isso acreditava que estavam na lista…
A medo rebuscam os nomes e quando os vêm marcados no quadro, com letras grossas e redondas assim como o nome do paquete que os traz: Santa Maria, foi como o rebentar de uma ribeira que se transbordara de tanta água: choram, abraçam-se e pulam e ajoelham-se e assim naquela posição fazem o trajecto dos correios até à Rua de Lisboa, com pessoas olhando intrigadas e elas felizes e agradecendo à Virgem, à Santa, ao barco do mesmo nome, porque os pais iriam finalmente chegar, trazendo com eles não só a sua querida irmãzinha uma outra bebé ainda …
No cais é um frenesim, um vaivém de pessoas que também aguardam familiares e amigos. Vêm-se os botes de cima para baixo e lá em baixo parecem pequeninos como as cascas dos amendoins com as quais aquelas crianças brincavam, às escondidas da mãe, imitando barquinhos navegando em celhas de roupas, roupas e barcos todos misturados. Os barquinhos iam e vinham levando negociantes trazendo passageiros, fazendo muito barulho, subindo e descendo, ouvindo-se o chuá dos remos até desaparecerem para lá das luzes do pequeno cais. O paquete “Santa Maria” chegara havia muito tempo mas naquele tempo, os barcos ancoravam no alto mar… o grande cais ainda não existia.
As criancinhas estavam ali naquele cais esperando, esperando e naquela espera todas estavam de acordo em como esse tempo demorava mais que os quatro anos em que o pai estivera longe. Nunca uma espera lhes parecera tão longa e demorada. Naquele momento, a fome que apertava a barriga e o estômago, as dores nos pés, as pisadelas de toda a massa que invadia o espaço não tinham importância nenhuma. Havia um só pensamento e uma só vontade naqueles corações.
Parecia que no pequeno bote só vinha ele, mais ninguém. Verónica olhava-o e tinha a impressão de ver o “sport” de um filme daqueles tempos. E a mulher do sport vinha bela e serena com uma linda bebé ao colo, e na mão aquela irmãzinha já tão crescidinha, falando, falando muito e …português. Tanta coisa boa de uma só vez não cabia no seu coração. Naquele dia ela podia dar largas às suas lágrimas porque ninguém se lembraria de a chamar de chorona. Eram todos uns chorões - abraçavam-se, riam-se voltavam a abraçar-se, misturando-se ranho com beijos e com perguntas sem respostas.
Não se sabe como, couberam todos naquele carro. Fizeram questão de ir todos, de ir para casa naquele mesmo dia, naquele mesmo momento para se reencontrarem lá onde era o seu meio, o seu elo. A noite escura, a estrada comprida de terra batida sem iluminação e a distância aumentaram o deleito do reencontro. E embevecidos escutavam as histórias que o pai rindo contava. E faziam perguntas e riam às gargalhadas. Dir-se-ia que as paredes cantavam também felizes com o eco daquelas gargalhadas e teciam elas também um hino de regresso, de amor, porque comemoravam o convívio com aqueles seres que se amavam e se entregavam num enleio simples e profundo à própria vida. E o pai, naquela noite brincou com todos, pô-los a todos no “cachacinho” e cantou com todos o regresso.
Já noite alta, quando todos se sentem extenuados de tanta felicidade, depois de um dia de tanta emoção, embrulham-se na lembrança daquele reencontro e nem vontade sentem de dormir. Preparam-se para apagar as luzes e o pai de mansinho segura as mãos de Verónica que não se cansa de o mirar e de o remirar, deixando escorregar por entre elas um lindo pequeno rosário, de pedras brilhantes que lhe parecem lágrimas de um anjo - para a minha querida fadazinha. Verónica beija-as com carinho, sentindo-lhes o brilho nos lábios e na alma. Docemente encosta-se à cama e ainda com o terço apertado nas mãos esvai-se num sono doce e profundo...

Praia, 21 de Outubro de 2009
Alice Mascarenhas.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Textos a partir de outros textos: a fabulosa arte da reinvenção

Conheci Ricardo nos meados dos anos sessenta, num desses encontros de jovens/artistas à procura de emoções. Foi uma empatia mútua que logo se transformou numa grande amizade. Ricardo escrevia na época criticando o regime com os seus poemas. Foi numa noite em que estávamos numa reunião de amigos que conhecemos a Luna. Jovem, bela e muito extrovertida. Apaixonei-me de imediato pela bela Luna. Esta, de início, correspondeu ao meu amor mas, com o tempo, afastou-se. Tinha-se apaixonado pelo Ricardo...
Começa para mim um período de completo desequilíbrio e procuro então encontrar na bebida o lenitivo para a minha dor. Ricardo vê no meu sofrimento a ocasião para se declarar: está completamente perdido de amores mas não sabe como me dizer: teme a minha reacção. É num dia em que eu havia bebido até à saturação que Ricardo vê a ocasião para se abrir comigo. Abraça-me e beija-me contra toda a minha estupefacção.
Luna, entretanto, estava decidida a defender o seu amor e fora à minha casa onde sabia encontrar o Ricardo. Tinha de o convencer do seu amor. Estava disposta a tudo.
Entra e deparando-se com a cena do Ricardo beijando-me, atira-se a ele com força, esmurra-o, empurra-o e ele cai embatendo com a cabeça em qualquer objecto. Ricardo jaz morto no chão…

Luna não acredita no que os seus olhos vêem. Tresloucada sai a correr, fugindo da horrenda visão. A polícia chega e encontra-me abraçado a Ricardo, o corpo num vaivém e os olhos fixos no nada.
Acusam-me de ter assassinado o Ricardo e o meu mutismo é total. Passo dez anos na prisão…
Alice
(a partir de A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro)

Rosa Cabarcas pôs mãos à obra na procura da virgem adolescente que o seu amigo “sábio triste” lhe pediu para uma noite de amor louco no dia dos seus noventa anos. Chamou Miguelina, pedindo informações, e ela indicou-lhe mais três pessoas que talvez conhecessem uma virgem adolescente. Ligou para todas mas todas disseram que não tinham a mínima ideia, pois já há muito não ouviam falar disso.
- As meninas já não esperam, perderam a paciência!
Desanimada Rosa Cabarcas tentou Maria das Mercês que vivia no bairro cigano de Guan. Maria das Mercês rondava os setenta anos, tinha tido uma casa de Lanterna mas agora dedicava-se a ajudar a criar os netos.
- Olá Mercês, sou a Rosa!
( ultrapassadas a troca das primeiras impressões entre duas pessoas que há algum tempo não se viam)
- Preciso de um favor teu, Mercês: uma virgem adolescente.
Poucos minutos depois ligou ao “sábio triste” e informou-o de que o seu desejo seria satisfeito.
Mafalda era esguia, coxas que começavam a arredondar, cintura fina que já se desenhava, os seios, quais botões de rosa, aguardavam o alvorecer para desabrochar. O cabelo negro, os olhos cor de mel, debruados de pestanas longas, denotavam uma tristeza da alma.
“Sábio triste” veio naquele dia contando comemorar os seus noventa anos como sonhara. Alguma ansiedade, uma alegria escondida, um ar de quem vai ao encontro daquilo a que tem direito.
Mafalda espera, sentada e semi-nua, na ponta da cama, olhinhos amedrontados.
Ele entra, olha a menina que o esperava e sente o tremor que lhe percorre o corpo, diferente daquele que percorre o seu. Pensa na sua vida e o passado correu-lhe na mente como num filme, percebeu a distância que os separava e teve pena dele mesmo antes de sentir pena dela.
Elsa
(a partir de Memória das Minhas Putas Tristes, Gabriel García Márquez)

O grupo estava reunido para traçar estratégias a levar a bom termo: o assalto a um dos principais bancos da capital. A seguir ao comentário de Flávio (o Doutor), relativamente ao atraso de Silvino para aquela reunião, Renato (o Pacífico) atira-se a ele e quase o mata não fosse a intervenção rápida de dois deles... Nisto, ouve-se pancadas fortes na porta. Todos se assustam. Quem será? Por momentos reina a inquietação! Imediatamente, como se o mesmo pensamento tivesse viajado por todas as mentes, houve um movimento de sair e procurar abrigo. Renato (o Pacífico), que era o chefe, fica aflito pois imagina a policia a irromper por ali no momento em que o esquema do assalto ainda não estava todo bem delineado. Flávio (o Doutor), através de gestos, aconselha a sua filha Marieta, que tinha saído do quarto onde dormitava, sem imaginar a tramóia em que seu proprio pai estava metido. Esta, criança ainda, timidamente vai espreitar. Abre a porta e ouve-se uma voz grave a dizer: as duas pizzas encomendadas. Suspiro de alívio geral! Afinal nao era a polícia! Rapidamente, Flávio (o Doutor) recupera as pizzas, paga ao garçon e fecha a porta, depois de bem espreitar para a rua. Sugere, então, que façam um pequeno intervalo para saciarem a fome pois que, desde o dia anterior, nada tinham ingerido. Assim, os esquemas do assalto ao banco ficaram para mais tarde.
Ana Maria
(a partir de Crónica dos Bons Malandros, Mário Zambujal)
Aquela, como tantas outras, tinha sido mais uma execução, não lhe causava espécie alguma de remorsos, cada vez que P marcava P no rosto das prostitutas ou de algum indigente. Sentia-se livre! Sentia-se útil! Trabalhava para manter o sistema limpo sem ser pago. Naquela noite, mais uma noite de caça, ou execução como quiserem, dirigiu-se à zona dos bordéis onde as meninas expunham os seus corpos semi-nus impregnados de perfume barato perceptível ao longo daquela rua estreita com pouca iluminação. Deteve-se a observar atentamente e houve uma silhueta que lhe chamou a atenção! O que é que esta ninfa está aqui a fazer? Questionou-se. Não tem ar de puta! Veio só fazer uns trocos? Assim que termina a frase, sente um suave toque no ombro que lhe causa calafrios. Por instantes viaja até à sua infância, aterra na sua cidade natal e vê um filme a preto e branco passar diante dos seus olhos e parar naquele olhar vindo da sua memória a pedir socorro e afundar-se no rio. Aparece-lhe sem pedir licença! Tremem-lhe as pernas! Quase desmaia! Oi gato, não lhe apetece uma cerveja? Está tanto calor! - pergunta-lhe a dona daquele toque perturbador. Pela primeira vez em anos de trabalho sente-se inseguro, desnorteado, confuso e bastante aturdido com aquele simples toque. Já dentro do bar, cerveja na mão! Segunda viagem, esta na espuma daquela estonteante cerveja gelada. Vamos subir! No quarto, ela começa a despir-se enquanto acaricia as pernas de P, subindo até a zona púbica, morde o membro em erecção de P que pela segunda vez se sente desnorteado. Bem, vou acabar com isto duma vez! Fecha os olhos agarra no pescoço dela com força pressionando cada vez mais com aquelas mãos musculadas, e de repente abre os olhos por instantes e aquele olhar fita-o na alma, empurra a rapariga para longe de si e atira-se para o chão em prantos. Ela fica sem saber o que fazer, incrédula com o que tinha acabado de acontecer. Será uma fantasia sexual dele? Atira-se ao chão de imediato, põe a cabeça dele no seu colo, passa-lhe as mãos nos caracóis com ternura enquanto lhe beija a testa. E P chora, chora, berra, quase que grita afogando-se nas próprias lágrimas, soluça compulsivamente. Aquele olhar dá-lhe segurança, sente-se redimido, de volta a casa, vêm-lhe imagens de uma infância com momentos de ternura enquanto sua mãe era viva. A redenção tinha chegado àquele quarto barato foleiro de bordel de esquina. Havia luz naquele inferno. Era a salvação.
Jota
(a partir de A Grande Arte, Ruben Fonseca)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Oito

- São 7:45 hrs!

(a porta fecha-se, roda a fechadura duas vezes)

A porta de acesso ao prédio custa a abrir, é preciso usar mais energia nas mãos, depois de aberta tem ainda algumas escadas a descer, dirige-se para o carro.

- Está tudo organizado?

( no banco de trás do carro estão todas as bolsas)

O carro arranca, procura ruas menos movimentadas, pois a essa hora os minutos contam, pega o rumo da Achada de Santo António, passa a ETAR, Kebra Kanela, Cruz do Papa.

- Uhau Caxupa com leite e café?

O Expo Café e o Café Festarola já estão abertos e servindo o habitual café, pessoas de várias idades já se encontram sentadas nas cadeiras e preparando o estômago para mais um dia de trabalho.

Carros cruzam-se em várias direcções, levando crianças para escola e com pressa de chegar a horas ao serviço.

- Elsa!

Chega ao escritório, sai do carro e dirige-se lentamente para mais um dia de desafios.
Elsa

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

"Só espero não ter assassinado o texto do Cardoso Pires"

Fica-se a vê-la a atravessar o terreiro a passo seguro atrás dos outros algemados. O policial, indeciso entre os sublinhados de Mena, trai-se a si mesmo. Vai atrás dela e pega-lhe não na mão, mas na algema da mão esquerda, bem da sua preferência. Salazar, por detrás, segreda-lhe: «os sublinhados do sistema, os sublinhados da Situação. Resolve a tua Situação com Mena». O policial arde por Mena, com vontade de arder em auto-de-fé com ela, entre lençóis de fogo. Começa a imaginar-se no chão sujo da cela, fria, a escorrer delações pelas paredes. Depois deste pensamento não hesita. «Espere, Mena». Mena vira-se para trás e cospe-lhe eroticamente no olho. «Sim, fui eu quem pôs os sublinhados no livro do Cabo. E sabe que mais, meu palerma? Gostei».
É desta. Aguarda, ansioso, que os outros algemados atravessem e puxa-a pelas algemas, em jeito de tango argentino. Em busca da chave da cela. Arrasta-a nesse movimento de circo, ele, o trapezista que a vai deixar cair, ela, a trapezista que sabe que por baixo não há rede. Chegam à cela. Ele larga-lhe a algema, senta-se no chão de pernas abertas. «Atire-se de encontro à parede». Ela obedece. «Agora, esfregue-se nela de alto a baixo». Ela obedece, antevendo um desfecho quente. Insinua-se à parede, de lado, percorre-a com cada poro do corpo, sem olhar uma única vez para o policial. «Agora vire-se para mim». Ela obedece, de olhos fechados. «Dispa-se». Ela despe-se, sempre de olhos fechados. O policial, cada vez mais in and out, sem output visível. Saca da smith e ela bem o sabe. Abre os olhos.
O policial levanta-se, resoluto e impoluto, e caminha para ela, lentamente. Não lhe toca uma única vez. «Vou sublinhar-lhe a testa, minha cabra desejável. Mostre lá o lápis azul com que pinta os olhos…não era isto que dizia?». Ela: «Mostre-me você o lápis vermelho. Corrija-me o trabalho de casa». A esta provocação ele não resistiu: vai enfiar-lhe um tiro na testa, para terminar a Situação. Happy end: roleta russa. Grande jogo. O jogo mais erótico de sempre: a excitação do entre a vida e a morte num breve segundo de disparar de gatilho. Mena agora já não cheira a vontade de sexo, cheira a vontade de mijar, de trepar pelas paredes. Segundo tiro: nada. Andam neste jogo durante cinco minutos. Mena escorrega parede abaixo e o policial finalmente abre mão do jogo. Empate. “E manda-a seguir com um empurrão. Fica-se a vê-la a atravessar o terreiro, mas agora a passo inseguro atrás dos outros algemados.” «Foda-se, cobarde!», pensa o policial.
Flávia
(reivenção do desenlace de "Balada da Praia dos Cães", de José Cardoso Pires)

Quatro

TESTAMENTO

Eu, José das Neves, maior, casado, natural da Ilha das Flores, filho de Fernando das Neves e de Gertrudes Almeida, portador do B.I. 00717, passado pelo Arquivo de Identificação de Bruges, declaro que, apesar da minha idade, da calvície e orelhas arrebitadas, que me deixam ainda cientes da ultima vontade, deixar a metade dos meus bens e males distribuídos da seguinte forma: os bens materiais à minha filha que sempre cuidou deste corpo esguio e de ossos pesados, que só se ergue do seu leito quando é para expor as parte íntimas. Os males ao desgraçado do meu genro que, por sorte, já leva a jóia que é a minha filha. Aos meus filhos que vão trabalhar para sustentarem as preguiçosas e malandras das esposas que nada lhes chegam.

Declaro ainda que não desejaria ser sepultado com funeral, isto é, que o caixão seja simples e barato, apenas não dispensando um lindo fato azul a combinar com estes lindos olhos, pena irem fechados. Não gostaria que o meu corpo fosse encomendado por nenhuma religião, a minha paciência com as beatas tem limites, portanto que o meu funeral seguisse da casa de residência, as minhas mulheres que decidam, ao cemitério, gostaria no entanto que antes da saída de casa um grupo de pessoas entoasse um hino ou uma morna sentimental.

Feito aos 14 do mês de Fevereiro do ano da graça de 2090

Cláudia Lima

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

"Este texto é um bocado parvo"

Aquela herança, vinte galões de ouro do século XVII, era falsa, diziam as bocas da vizinhança. Tinham passado de geração em geração até à avó de Arlindo e de Hilário Gomes Alves, uma velha corcunda da rotunda de Algés, carcomida pelos anos e anos de apanha de morangos em França. Maria do Céu, esposa de HGA, era uma preta linda, daquelas com lábios carnudos, e rechonchuda que nem uma botija de gás. Bebia aguardente com toda a sede do mundo e surrava Hilário porque este não dava conta do recado nas noites de cio. Hilário não era baixinho, era cambuta, meia cuca, quando entrava no botequim da Rua das Flores pedia meio bagaço se faz favor e meio copo de água. Como se aquela mistura lhe trouxesse salvação e altura! Pois não trouxe! Ai se tivesse pedido um cálice inteiro! Talvez não se safe, do que ouvimos contar na Praça de Algés! Não se falou doutra coisa durante um mês! Ai minha nossa se vocês tivessem visto o facalhão do menino Arlindo! Ai que horror! Quase que matava o primo! Mas é melhor assim sabe? Mais vale ferido pelo primo que morto na cama.
Jota

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Cinco

Não há janelas no meu quarto. A porta envidraçada, sem colorido algum, quando aberta leva-me a um pequeno pátio interior onde um quadro branco dependurado faz as delícias da minha neta nas suas brincadeiras e detona os meus sentidos. Fecho os olhos e deixo-me sempre invadir por cores, sons e odores da minha infância. Descortino num horizonte imaginário longínquo o mar e o grande monte adormecido num céu cinzelado e misterioso que me transporta a outros mundos desconhecidos. Nos espaços vazios e incolores de agora reencontro-me e deixo-me embeber do cheiro ocre do campo de então e vejo-me a correr atrás do rebanho rebelde e irrequieto que teima em pesar o meu entorpecimento de mulher –criança, galgando os montes em picos e povoados de sombras misteriosas. Dir-se-ia que estes abundam agora no pátio interior junto ao meu quarto só que não trazem consigo aquele aroma que me fazia sonhar…

Alice

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Dois

Hall do prédio

Maravilhosa, branca, doce a princípio, depois monótona. Não se deixa engolir por parva à primeira, nem à segunda, nem à última. Está postada na escada, à espera de que alguém lhe preste alguma atenção. Passa o vizinho do terceiro esquerdo: «sempre a mesma coisa, as pessoas passam e ninguém a vê». Passa a criança, demora um olhar guloso sobre ela. A mãe diz-lhe: «deixa-a estar onde está, não se sabe por onde ou com quem ela andou. Entra para o elevador!». Finalmente, passa displiscentemente a D.Luzia, a senhora da limpeza: «mas que chatice! Maldito seja quem te largou na escada da vida!». Ela deixou-se estar, impávida e serena. D.Luzia, sempre com aquela cara de quem está farta das escadas daquele maldito nº 12, fecha a jornada de trabalho. Varre a maravilhosa, branca, doce a princípio, depois monótona pastilha elástica apaixonadamente colada ao cantinho do vão do rés-do-chão C.

Este prédio tem várias plantas, dispostas alinhadamente em cada degrau das escadas do hall de entrada. Passa o vizinho do terceiro esquerdo, que demora um olhar guloso sobre a filha do vizinho do quinto, agora com dezoito anos. A vizinha do quinto, agora com dezoito anos, desce a escada em direcção à porta já velha do prédio, com o cuidado de se roçar inocentemente no filho motoqueiro do vizinho do sétimo. O filho motoqueiro do vizinho do sétimo abre a porta do prédio ao vizinho do terceiro esquerdo, um velhote reformado, cuja mulher passa a vida a regar as várias plantas dispostas alinhadamente em cada degrau das escadas do hall de entrada. A porta do elevador, com aqueles botões de camisa old-fashioned, abre-se: sai o miúdo que passa a vida a apanhar as pastilhas elásticas coladas no vão da escada e com ele, a mãe, amante do vizinho do sétimo.

O bar-quiosque

É daqueles objectos mais eróticos que se possa imaginar. Redonda, mexe-se bem se for bem «mexida». Tem uma forma, no mínimo, singular: dependendo do ponto de vista, é vertical e termina de forma oval, abrindo-se generosamente ao mundo; novamente, dependendo da posição, deleita-se na horizontal, lânguida, inerte, um verdadeiro pote de mel. Quando votada ao desprezo, ainda assim se deixa estar, à espera de um toque, de uma breve mas suave carícia de dedos – o polegar e o indicador. Atenção: finalmente alguém pega nela, como que ao colo, agarra-a entre a palma da mão e os dedos, e coloca-a delicadamente entre o pelgar e o indicador. Mexe o café, pousa-a. Ela é a famosa colher de café, que namora augúrios de pressa entre o açúcar e a bica cheia acabada de tirar no bar-quiosque onde acabo de me sentar.

O bar-quiosque em frente ao meu prédio cheira a gente com pressa de ir apanhar o autocarro das sete e trinta e dois, que chega à estação de comboios às sete e quarenta e um, que chega a Lisboa às oito e vinte e dois. Este bar-quiosque, em forma de moinho de vento, é um oásis ao fim-de-semana. Assiste a jogos de futebol, a crianças que o fustigam com desgraçadas voltas que o entontecem. O bar-quiosque é de lona, com janelas de plástico, que me deixam ver a velhota que serve, com a moleza de quem já não tem pressa de apanhar o autocarro das sete e trinta e dois, bicas e mais bicas. A pouca e despreocupada destreza da velhota fazem-na deixar cair, constantemente, as colheres de café das pequenas chávenas Sical.

A livraria

Circulando pelas poucas estantes da livraria, a princípio fiquei enojada. É que a dona da livraria é muito, muito asséptica e muito me espantou que tal visitante pudesse partilhar comigo os mesmos gostos literários. Com umas antenas bem esticadas, a andarem para cima e para baixo, estava tão admirada quanto eu. Afinal, verdade seja dita, chegara primeiro, de malas aviadas e tinha direito a ler Eça de Queirós, que julgava eu?!A barata, cor-de-mel (que mania de implicar com a cor nojenta das pobres!), estava sentada entre as publicações Europa-América, na terceira estante a contar da esquerda, e a estante de autores portugueses de leitura obrigatória, quarta estante a contar da direita.

De Novembro a Novembro, a livraria parece uma árvore de folha caduca. Com muitos galhos, mas vazia de gente. Para mim, está cheia daquAlinhar à direitaeles livros que não interessam, daqueles que interessam pouco, daqueles que pouco ou nada interessam e ainda daqueles que releio constantemente (se calhar também não interessam). As estantes têm imperceptíveis pontinhos pretos, sobre os quais muito me intriga a proveniência. A dona da livraria é tão bonita (ai, mas coitada, tem um filho que se meteu com uma moça que não interessa, coitadinho!), mas parece tão só nessa livraria. Se calhar, nem a vida dela interessa, apenas o prazer mórbido de esborrachar as baratas que insistem em alojar-se nas poucas estantes da livraria.
Flávia Ba
A Praça do Papa. Quem a fez parece ter usado dedais, este costureiro emerge de entre os muitos desta cidade tão mal bordada. Esta praça, foi bordada a ponto cruz, com linhas de muitas cores. Ao centro a eterna lembrança de João Paulo II, vivo por meio do chilrear de muitas crianças que nos baloiços e escorregas da entrada se deliciam nas muitas correrias. Por aqui os amantes estão felizes, não importa a hora. Enquanto espero a canalha, passeio-me, continuo a descoberta, vou andado e sento-me. O olho para todos os lados e vejo uma tarde mágica, afinal estou envolta num aroma de flores frescas. Ao fundo o sol se põe, mas ainda avisto o Vulcão, uma dádiva deste fim de tarde. É o Djarfogo a dizer olá a Nhô Santiago. Lá em baixo um Palmarejo de muitas faces, melhor caminhar. Entre avós e netos, sou surpreendida por um simpático anfiteatro no contorno. Ah, como é mal aproveitado. O que esperam para nos deliciarem com os concertos ao ar livre? Volto ao centro e a cruz me conduz à meditação. Assim, sento-me na escadaria e prolongo a vista pelo vasto oceano. Estou convencida de que lá em baixo está a quebra canela, a minha praia preferida na Praia.
Cláudia Brito

Um quarto com um certo espaco: mobília em ferro forjado preta que nao condiz com a cortina. Excesso de objectos na cómoda, melhor, penteadeira, com umas prateleiras em vidro com uma variedade de objectos: cremes e bijuteria pendurada e papéis sem importancia. Uma cama demasiado alta para uma pessoa de baixa estatura; tapetes que nao condizem com a colcha nem com as cortinas: cadeiras-sofás bonitos é certo, mas nao condizem com as cores da mobília do quarto. Nao sei se a cama tem os pés para o sul, como sugere um dos principios do yoga! Tenho de saber bem onde está o sul, ja que obtive várias versões dos nossos queridos engenheiros, arquitectos e mestres-de-obra! É incrivel a quantidade de versões diferentes destes técnicos! É por isso que Praia é uma cidade tao esquisita!
Profusao de cores neste quarto! Felizmente as paredes e o tecto são brancos ! O que me interessa, ao fim, é um espaco onde me sinta bem, possa descansar e meditar um pouco.
Ana Maria

Um

A Cidade desapareceu. Sumiu de um momento para o outro. Uma curva e nada. A última imagem da cidade era dominada pela ponte Sobre o Tejo. O vermelho da ponte dominava a paleta de cores da cidade. Todas as outras cores pareciam insignificantes. Parecia que tudo o resto se transformara numa massa unicolor, quase cinzenta, que se confundia com as nuvens, que carregadas de água, prometiam chuva. No início as casas eram decifráveis. As Cores. A Roupa estendida ao sol. Era um conjunto de volumes uns mais rectos e modernos e outros, que constituíam a maioria, desgastados pelo tempo que a qualquer momento prometiam cair. O Castelo do Senhor Jorge, nome dado pela minha filha, pois julgara que o castelo pertencia ao nosso vizinho do 3º Esq., destacava-se do ponto mais alto da Cidade. Mas eis que o carro voltava as costas às primeiras férias passadas com a minha pequena. E de repente a cidade escureceu. Ainda procurei vê-la no retrovisor do carro, mas apenas se viam arvores que fugiam do carro.
João Paradela
Vou-me afastando da baia, digo-me pronta para enfrentar os carneirinhos, estão todos penteados, sinais de um canal de boa maré. De frente para o guardião da cidade, penso como é majestoso o Monte Cara! Lentamente, vou-me afastando de Mindelo deixando a nostalgia do costume. O sol já está menino, mas a cidade ainda não tirou os saltos e as lantejoulas. Esta linda Dama de maquilhagem por retocar, continua sambando. Há festa está por todo o lado. Consigo vislumbrar o mascrinha sambando numa rua de Lisboa abarrotada de foliões. Enquanto a Dama pensa em se recolher, o cais acorda. Na matióta a festa acabou. A azáfama para conseguir um cliente faz o apelo para as mil e uma artes. Imagino o porto de outrora com marinheiros, capitães, cicerones, e verdadeiras damas de lantejoulas. Lá se foi o tempo de fartura para todos. A musa vai-se recolhendo aos poucos, leva consigo as histórias dos capitães. Fecho os olhos e acordo para o som do oceano perfumado. Apetece-me dançar mas pelo embalo parece que o Canal está próximo. Está-se melhor sentado.
Cláudia Brito
Lisboa parou sob o olhar de Mariza

Mariza percorre um fado naquele que podia ser um molineiro do Tejo. De longe, esse fado segreda-lhe uma Lisboa que parou num clique de fotografia. Mariza não quer os detalhes – quer separar o que mais ninguém vê, observar, agrupar as imagens e cantar o impacto de uma cidade que se debruça narcisicamente sobre si mesma. Começa.
Agora, Lisboa cheira-lhe a um corpo molhado do Tejo, depois de uma beata largada no Terreiro do Paço. Sabe-lhe a uma sardinha crua, perdida de um qualquer caixote largado ao vento no mercado da Ribeira, agora fechado. São duas da tarde. Mariza estaca ainda: dá início a um fado de Alfama, numa cidade que agora vê a preto e branco. Deu início ao canto do cisne. A cidade recua: o Terreiro do Paço e as suas arcadas estão de olhos pisados perante a chusma de gente que estacou sob o seu olhar. Pessanha chora pelas arcadas quem sabe de um violoncelo esquecido, mais à frente, na Rua dos Bacalhoeiros, que Mariza agora não vê mas sente. S.Jorge já só mostra os dentes enciumados dos picos góticos do Convento do Carmo, as agulhas que furam agora a cor de Lisboa que parece esfumar-se rio adentro. Lisboa afasta-se num grito de gaivota: gaivota em terra, tempestade no cais. Ela vê a tempestade aproximar-se em forma de gente, pequenina, cada vez mais pequena, cada vez mais magoada, em busca do molineiro do Tejo que agora se afasta. Mariza afasta-se da sua amante…é o Tejo que a rouba calmamente de Lisboa, a amante enfadada…a sua amante a preto e branco…que lhe sabe a sardinha crua, perdida de um qualquer caixote, largado ao vento no mercado da Ribeira, agora fechado.

Flávia Ba

Abre-se o pano


A primeira edição do Workshop de Escrita Criativa, a decorrer desde 5 de Outubro de 2009 na Fundação Amílcar Cabral, na Cidade da Praia, está a apresentar notáveis mentes criativas.

Sendo o grupo de onze elementos surpreendentemente heterogéneo, serve este blog para dar conta dos preciosos momentos de criação que vão vendo a luz do dia.