quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Um

A Cidade desapareceu. Sumiu de um momento para o outro. Uma curva e nada. A última imagem da cidade era dominada pela ponte Sobre o Tejo. O vermelho da ponte dominava a paleta de cores da cidade. Todas as outras cores pareciam insignificantes. Parecia que tudo o resto se transformara numa massa unicolor, quase cinzenta, que se confundia com as nuvens, que carregadas de água, prometiam chuva. No início as casas eram decifráveis. As Cores. A Roupa estendida ao sol. Era um conjunto de volumes uns mais rectos e modernos e outros, que constituíam a maioria, desgastados pelo tempo que a qualquer momento prometiam cair. O Castelo do Senhor Jorge, nome dado pela minha filha, pois julgara que o castelo pertencia ao nosso vizinho do 3º Esq., destacava-se do ponto mais alto da Cidade. Mas eis que o carro voltava as costas às primeiras férias passadas com a minha pequena. E de repente a cidade escureceu. Ainda procurei vê-la no retrovisor do carro, mas apenas se viam arvores que fugiam do carro.
João Paradela
Vou-me afastando da baia, digo-me pronta para enfrentar os carneirinhos, estão todos penteados, sinais de um canal de boa maré. De frente para o guardião da cidade, penso como é majestoso o Monte Cara! Lentamente, vou-me afastando de Mindelo deixando a nostalgia do costume. O sol já está menino, mas a cidade ainda não tirou os saltos e as lantejoulas. Esta linda Dama de maquilhagem por retocar, continua sambando. Há festa está por todo o lado. Consigo vislumbrar o mascrinha sambando numa rua de Lisboa abarrotada de foliões. Enquanto a Dama pensa em se recolher, o cais acorda. Na matióta a festa acabou. A azáfama para conseguir um cliente faz o apelo para as mil e uma artes. Imagino o porto de outrora com marinheiros, capitães, cicerones, e verdadeiras damas de lantejoulas. Lá se foi o tempo de fartura para todos. A musa vai-se recolhendo aos poucos, leva consigo as histórias dos capitães. Fecho os olhos e acordo para o som do oceano perfumado. Apetece-me dançar mas pelo embalo parece que o Canal está próximo. Está-se melhor sentado.
Cláudia Brito
Lisboa parou sob o olhar de Mariza

Mariza percorre um fado naquele que podia ser um molineiro do Tejo. De longe, esse fado segreda-lhe uma Lisboa que parou num clique de fotografia. Mariza não quer os detalhes – quer separar o que mais ninguém vê, observar, agrupar as imagens e cantar o impacto de uma cidade que se debruça narcisicamente sobre si mesma. Começa.
Agora, Lisboa cheira-lhe a um corpo molhado do Tejo, depois de uma beata largada no Terreiro do Paço. Sabe-lhe a uma sardinha crua, perdida de um qualquer caixote largado ao vento no mercado da Ribeira, agora fechado. São duas da tarde. Mariza estaca ainda: dá início a um fado de Alfama, numa cidade que agora vê a preto e branco. Deu início ao canto do cisne. A cidade recua: o Terreiro do Paço e as suas arcadas estão de olhos pisados perante a chusma de gente que estacou sob o seu olhar. Pessanha chora pelas arcadas quem sabe de um violoncelo esquecido, mais à frente, na Rua dos Bacalhoeiros, que Mariza agora não vê mas sente. S.Jorge já só mostra os dentes enciumados dos picos góticos do Convento do Carmo, as agulhas que furam agora a cor de Lisboa que parece esfumar-se rio adentro. Lisboa afasta-se num grito de gaivota: gaivota em terra, tempestade no cais. Ela vê a tempestade aproximar-se em forma de gente, pequenina, cada vez mais pequena, cada vez mais magoada, em busca do molineiro do Tejo que agora se afasta. Mariza afasta-se da sua amante…é o Tejo que a rouba calmamente de Lisboa, a amante enfadada…a sua amante a preto e branco…que lhe sabe a sardinha crua, perdida de um qualquer caixote, largado ao vento no mercado da Ribeira, agora fechado.

Flávia Ba

Nenhum comentário:

Postar um comentário