Hall do prédio
Maravilhosa, branca, doce a princípio, depois monótona. Não se deixa engolir por parva à primeira, nem à segunda, nem à última. Está postada na escada, à espera de que alguém lhe preste alguma atenção. Passa o vizinho do terceiro esquerdo: «sempre a mesma coisa, as pessoas passam e ninguém a vê». Passa a criança, demora um olhar guloso sobre ela. A mãe diz-lhe: «deixa-a estar onde está, não se sabe por onde ou com quem ela andou. Entra para o elevador!». Finalmente, passa displiscentemente a D.Luzia, a senhora da limpeza: «mas que chatice! Maldito seja quem te largou na escada da vida!». Ela deixou-se estar, impávida e serena. D.Luzia, sempre com aquela cara de quem está farta das escadas daquele maldito nº 12, fecha a jornada de trabalho. Varre a maravilhosa, branca, doce a princípio, depois monótona pastilha elástica apaixonadamente colada ao cantinho do vão do rés-do-chão C.
Este prédio tem várias plantas, dispostas alinhadamente em cada degrau das escadas do hall de entrada. Passa o vizinho do terceiro esquerdo, que demora um olhar guloso sobre a filha do vizinho do quinto, agora com dezoito anos. A vizinha do quinto, agora com dezoito anos, desce a escada em direcção à porta já velha do prédio, com o cuidado de se roçar inocentemente no filho motoqueiro do vizinho do sétimo. O filho motoqueiro do vizinho do sétimo abre a porta do prédio ao vizinho do terceiro esquerdo, um velhote reformado, cuja mulher passa a vida a regar as várias plantas dispostas alinhadamente em cada degrau das escadas do hall de entrada. A porta do elevador, com aqueles botões de camisa old-fashioned, abre-se: sai o miúdo que passa a vida a apanhar as pastilhas elásticas coladas no vão da escada e com ele, a mãe, amante do vizinho do sétimo.
O bar-quiosque
Maravilhosa, branca, doce a princípio, depois monótona. Não se deixa engolir por parva à primeira, nem à segunda, nem à última. Está postada na escada, à espera de que alguém lhe preste alguma atenção. Passa o vizinho do terceiro esquerdo: «sempre a mesma coisa, as pessoas passam e ninguém a vê». Passa a criança, demora um olhar guloso sobre ela. A mãe diz-lhe: «deixa-a estar onde está, não se sabe por onde ou com quem ela andou. Entra para o elevador!». Finalmente, passa displiscentemente a D.Luzia, a senhora da limpeza: «mas que chatice! Maldito seja quem te largou na escada da vida!». Ela deixou-se estar, impávida e serena. D.Luzia, sempre com aquela cara de quem está farta das escadas daquele maldito nº 12, fecha a jornada de trabalho. Varre a maravilhosa, branca, doce a princípio, depois monótona pastilha elástica apaixonadamente colada ao cantinho do vão do rés-do-chão C.
Este prédio tem várias plantas, dispostas alinhadamente em cada degrau das escadas do hall de entrada. Passa o vizinho do terceiro esquerdo, que demora um olhar guloso sobre a filha do vizinho do quinto, agora com dezoito anos. A vizinha do quinto, agora com dezoito anos, desce a escada em direcção à porta já velha do prédio, com o cuidado de se roçar inocentemente no filho motoqueiro do vizinho do sétimo. O filho motoqueiro do vizinho do sétimo abre a porta do prédio ao vizinho do terceiro esquerdo, um velhote reformado, cuja mulher passa a vida a regar as várias plantas dispostas alinhadamente em cada degrau das escadas do hall de entrada. A porta do elevador, com aqueles botões de camisa old-fashioned, abre-se: sai o miúdo que passa a vida a apanhar as pastilhas elásticas coladas no vão da escada e com ele, a mãe, amante do vizinho do sétimo.
O bar-quiosque
É daqueles objectos mais eróticos que se possa imaginar. Redonda, mexe-se bem se for bem «mexida». Tem uma forma, no mínimo, singular: dependendo do ponto de vista, é vertical e termina de forma oval, abrindo-se generosamente ao mundo; novamente, dependendo da posição, deleita-se na horizontal, lânguida, inerte, um verdadeiro pote de mel. Quando votada ao desprezo, ainda assim se deixa estar, à espera de um toque, de uma breve mas suave carícia de dedos – o polegar e o indicador. Atenção: finalmente alguém pega nela, como que ao colo, agarra-a entre a palma da mão e os dedos, e coloca-a delicadamente entre o pelgar e o indicador. Mexe o café, pousa-a. Ela é a famosa colher de café, que namora augúrios de pressa entre o açúcar e a bica cheia acabada de tirar no bar-quiosque onde acabo de me sentar.
O bar-quiosque em frente ao meu prédio cheira a gente com pressa de ir apanhar o autocarro das sete e trinta e dois, que chega à estação de comboios às sete e quarenta e um, que chega a Lisboa às oito e vinte e dois. Este bar-quiosque, em forma de moinho de vento, é um oásis ao fim-de-semana. Assiste a jogos de futebol, a crianças que o fustigam com desgraçadas voltas que o entontecem. O bar-quiosque é de lona, com janelas de plástico, que me deixam ver a velhota que serve, com a moleza de quem já não tem pressa de apanhar o autocarro das sete e trinta e dois, bicas e mais bicas. A pouca e despreocupada destreza da velhota fazem-na deixar cair, constantemente, as colheres de café das pequenas chávenas Sical.
A livraria
Circulando pelas poucas estantes da livraria, a princípio fiquei enojada. É que a dona da livraria é muito, muito asséptica e muito me espantou que tal visitante pudesse partilhar comigo os mesmos gostos literários. Com umas antenas bem esticadas, a andarem para cima e para baixo, estava tão admirada quanto eu. Afinal, verdade seja dita, chegara primeiro, de malas aviadas e tinha direito a ler Eça de Queirós, que julgava eu?!A barata, cor-de-mel (que mania de implicar com a cor nojenta das pobres!), estava sentada entre as publicações Europa-América, na terceira estante a contar da esquerda, e a estante de autores portugueses de leitura obrigatória, quarta estante a contar da direita.
De Novembro a Novembro, a livraria parece uma árvore de folha caduca. Com muitos galhos, mas vazia de gente. Para mim, está cheia daqu
eles livros que não interessam, daqueles que interessam pouco, daqueles que pouco ou nada interessam e ainda daqueles que releio constantemente (se calhar também não interessam). As estantes têm imperceptíveis pontinhos pretos, sobre os quais muito me intriga a proveniência. A dona da livraria é tão bonita (ai, mas coitada, tem um filho que se meteu com uma moça que não interessa, coitadinho!), mas parece tão só nessa livraria. Se calhar, nem a vida dela interessa, apenas o prazer mórbido de esborrachar as baratas que insistem em alojar-se nas poucas estantes da livraria.Flávia Ba
A Praça do Papa. Quem a fez parece ter usado dedais, este costureiro emerge de entre os muitos desta cidade tão mal bordada. Esta praça, foi bordada a ponto cruz, com linhas de muitas cores. Ao centro a eterna lembrança de João Paulo II, vivo por meio do chilrear de muitas crianças que nos baloiços e escorregas da entrada se deliciam nas muitas correrias. Por aqui os amantes estão felizes, não importa a hora. Enquanto espero a canalha, passeio-me, continuo a descoberta, vou andado e sento-me. O olho para todos os lados e vejo uma tarde mágica, afinal estou envolta num aroma de flores frescas. Ao fundo o sol se põe, mas ainda avisto o Vulcão, uma dádiva deste fim de tarde. É o Djarfogo a dizer olá a Nhô Santiago. Lá em baixo um Palmarejo de muitas faces, melhor caminhar. Entre avós e netos, sou surpreendida por um simpático anfiteatro no contorno. Ah, como é mal aproveitado. O que esperam para nos deliciarem com os concertos ao ar livre? Volto ao centro e a cruz me conduz à meditação. Assim, sento-me na escadaria e prolongo a vista pelo vasto oceano. Estou convencida de que lá em baixo está a quebra canela, a minha praia preferida na Praia.
Cláudia Brito
Um quarto com um certo espaco: mobília em ferro forjado preta que nao condiz com a cortina. Excesso de objectos na cómoda, melhor, penteadeira, com umas prateleiras em vidro com uma variedade de objectos: cremes e bijuteria pendurada e papéis sem importancia. Uma cama demasiado alta para uma pessoa de baixa estatura; tapetes que nao condizem com a colcha nem com as cortinas: cadeiras-sofás bonitos é certo, mas nao condizem com as cores da mobília do quarto. Nao sei se a cama tem os pés para o sul, como sugere um dos principios do yoga! Tenho de saber bem onde está o sul, ja que obtive várias versões dos nossos queridos engenheiros, arquitectos e mestres-de-obra! É incrivel a quantidade de versões diferentes destes técnicos! É por isso que Praia é uma cidade tao esquisita!
Profusao de cores neste quarto! Felizmente as paredes e o tecto são brancos ! O que me interessa, ao fim, é um espaco onde me sinta bem, possa descansar e meditar um pouco.
Ana Maria
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