quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Dois

Hall do prédio

Maravilhosa, branca, doce a princípio, depois monótona. Não se deixa engolir por parva à primeira, nem à segunda, nem à última. Está postada na escada, à espera de que alguém lhe preste alguma atenção. Passa o vizinho do terceiro esquerdo: «sempre a mesma coisa, as pessoas passam e ninguém a vê». Passa a criança, demora um olhar guloso sobre ela. A mãe diz-lhe: «deixa-a estar onde está, não se sabe por onde ou com quem ela andou. Entra para o elevador!». Finalmente, passa displiscentemente a D.Luzia, a senhora da limpeza: «mas que chatice! Maldito seja quem te largou na escada da vida!». Ela deixou-se estar, impávida e serena. D.Luzia, sempre com aquela cara de quem está farta das escadas daquele maldito nº 12, fecha a jornada de trabalho. Varre a maravilhosa, branca, doce a princípio, depois monótona pastilha elástica apaixonadamente colada ao cantinho do vão do rés-do-chão C.

Este prédio tem várias plantas, dispostas alinhadamente em cada degrau das escadas do hall de entrada. Passa o vizinho do terceiro esquerdo, que demora um olhar guloso sobre a filha do vizinho do quinto, agora com dezoito anos. A vizinha do quinto, agora com dezoito anos, desce a escada em direcção à porta já velha do prédio, com o cuidado de se roçar inocentemente no filho motoqueiro do vizinho do sétimo. O filho motoqueiro do vizinho do sétimo abre a porta do prédio ao vizinho do terceiro esquerdo, um velhote reformado, cuja mulher passa a vida a regar as várias plantas dispostas alinhadamente em cada degrau das escadas do hall de entrada. A porta do elevador, com aqueles botões de camisa old-fashioned, abre-se: sai o miúdo que passa a vida a apanhar as pastilhas elásticas coladas no vão da escada e com ele, a mãe, amante do vizinho do sétimo.

O bar-quiosque

É daqueles objectos mais eróticos que se possa imaginar. Redonda, mexe-se bem se for bem «mexida». Tem uma forma, no mínimo, singular: dependendo do ponto de vista, é vertical e termina de forma oval, abrindo-se generosamente ao mundo; novamente, dependendo da posição, deleita-se na horizontal, lânguida, inerte, um verdadeiro pote de mel. Quando votada ao desprezo, ainda assim se deixa estar, à espera de um toque, de uma breve mas suave carícia de dedos – o polegar e o indicador. Atenção: finalmente alguém pega nela, como que ao colo, agarra-a entre a palma da mão e os dedos, e coloca-a delicadamente entre o pelgar e o indicador. Mexe o café, pousa-a. Ela é a famosa colher de café, que namora augúrios de pressa entre o açúcar e a bica cheia acabada de tirar no bar-quiosque onde acabo de me sentar.

O bar-quiosque em frente ao meu prédio cheira a gente com pressa de ir apanhar o autocarro das sete e trinta e dois, que chega à estação de comboios às sete e quarenta e um, que chega a Lisboa às oito e vinte e dois. Este bar-quiosque, em forma de moinho de vento, é um oásis ao fim-de-semana. Assiste a jogos de futebol, a crianças que o fustigam com desgraçadas voltas que o entontecem. O bar-quiosque é de lona, com janelas de plástico, que me deixam ver a velhota que serve, com a moleza de quem já não tem pressa de apanhar o autocarro das sete e trinta e dois, bicas e mais bicas. A pouca e despreocupada destreza da velhota fazem-na deixar cair, constantemente, as colheres de café das pequenas chávenas Sical.

A livraria

Circulando pelas poucas estantes da livraria, a princípio fiquei enojada. É que a dona da livraria é muito, muito asséptica e muito me espantou que tal visitante pudesse partilhar comigo os mesmos gostos literários. Com umas antenas bem esticadas, a andarem para cima e para baixo, estava tão admirada quanto eu. Afinal, verdade seja dita, chegara primeiro, de malas aviadas e tinha direito a ler Eça de Queirós, que julgava eu?!A barata, cor-de-mel (que mania de implicar com a cor nojenta das pobres!), estava sentada entre as publicações Europa-América, na terceira estante a contar da esquerda, e a estante de autores portugueses de leitura obrigatória, quarta estante a contar da direita.

De Novembro a Novembro, a livraria parece uma árvore de folha caduca. Com muitos galhos, mas vazia de gente. Para mim, está cheia daquAlinhar à direitaeles livros que não interessam, daqueles que interessam pouco, daqueles que pouco ou nada interessam e ainda daqueles que releio constantemente (se calhar também não interessam). As estantes têm imperceptíveis pontinhos pretos, sobre os quais muito me intriga a proveniência. A dona da livraria é tão bonita (ai, mas coitada, tem um filho que se meteu com uma moça que não interessa, coitadinho!), mas parece tão só nessa livraria. Se calhar, nem a vida dela interessa, apenas o prazer mórbido de esborrachar as baratas que insistem em alojar-se nas poucas estantes da livraria.
Flávia Ba
A Praça do Papa. Quem a fez parece ter usado dedais, este costureiro emerge de entre os muitos desta cidade tão mal bordada. Esta praça, foi bordada a ponto cruz, com linhas de muitas cores. Ao centro a eterna lembrança de João Paulo II, vivo por meio do chilrear de muitas crianças que nos baloiços e escorregas da entrada se deliciam nas muitas correrias. Por aqui os amantes estão felizes, não importa a hora. Enquanto espero a canalha, passeio-me, continuo a descoberta, vou andado e sento-me. O olho para todos os lados e vejo uma tarde mágica, afinal estou envolta num aroma de flores frescas. Ao fundo o sol se põe, mas ainda avisto o Vulcão, uma dádiva deste fim de tarde. É o Djarfogo a dizer olá a Nhô Santiago. Lá em baixo um Palmarejo de muitas faces, melhor caminhar. Entre avós e netos, sou surpreendida por um simpático anfiteatro no contorno. Ah, como é mal aproveitado. O que esperam para nos deliciarem com os concertos ao ar livre? Volto ao centro e a cruz me conduz à meditação. Assim, sento-me na escadaria e prolongo a vista pelo vasto oceano. Estou convencida de que lá em baixo está a quebra canela, a minha praia preferida na Praia.
Cláudia Brito

Um quarto com um certo espaco: mobília em ferro forjado preta que nao condiz com a cortina. Excesso de objectos na cómoda, melhor, penteadeira, com umas prateleiras em vidro com uma variedade de objectos: cremes e bijuteria pendurada e papéis sem importancia. Uma cama demasiado alta para uma pessoa de baixa estatura; tapetes que nao condizem com a colcha nem com as cortinas: cadeiras-sofás bonitos é certo, mas nao condizem com as cores da mobília do quarto. Nao sei se a cama tem os pés para o sul, como sugere um dos principios do yoga! Tenho de saber bem onde está o sul, ja que obtive várias versões dos nossos queridos engenheiros, arquitectos e mestres-de-obra! É incrivel a quantidade de versões diferentes destes técnicos! É por isso que Praia é uma cidade tao esquisita!
Profusao de cores neste quarto! Felizmente as paredes e o tecto são brancos ! O que me interessa, ao fim, é um espaco onde me sinta bem, possa descansar e meditar um pouco.
Ana Maria

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