terça-feira, 13 de outubro de 2009

Cinco

Não há janelas no meu quarto. A porta envidraçada, sem colorido algum, quando aberta leva-me a um pequeno pátio interior onde um quadro branco dependurado faz as delícias da minha neta nas suas brincadeiras e detona os meus sentidos. Fecho os olhos e deixo-me sempre invadir por cores, sons e odores da minha infância. Descortino num horizonte imaginário longínquo o mar e o grande monte adormecido num céu cinzelado e misterioso que me transporta a outros mundos desconhecidos. Nos espaços vazios e incolores de agora reencontro-me e deixo-me embeber do cheiro ocre do campo de então e vejo-me a correr atrás do rebanho rebelde e irrequieto que teima em pesar o meu entorpecimento de mulher –criança, galgando os montes em picos e povoados de sombras misteriosas. Dir-se-ia que estes abundam agora no pátio interior junto ao meu quarto só que não trazem consigo aquele aroma que me fazia sonhar…

Alice

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