quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O conto do César: surpreendente!

Amor porco

Aos catorze Viviane tinhas as mamas mais maduras do liceu. Aos quinze, não se falava doutra coisa, ela dava. À hora do intervalo, sentávamo-nos sempre no mesmo banco de cimento no pátio, um ponto de vista panorâmico dos três pisos do edifício. Podia vê-la a qualquer momento. Saiu da sala de rompante, o que quase causou que o coração me saltasse pela boca. Vinha em passos balançados pelos corredores. Interrompia os jogos por onde passava e gostava de saber do seu poder de perturbação. As minhas mãos começavam logo a tremer, as tripas eufóricas, de uma fonte interior emergiam-me suores, em torrentes, que me jorravam na fronte, nos sovacos, pelos ouvidos. César reparava o estado de pânico que eu passava de toda a vez que Viviane aparecia. César reparava em todos, em tudo, e qualquer coisa podia se transformar num gozo infernal na sua cabeça pequena de diabo. César fez o sinal aos colegas. Como um porco que sabe que vai morrer, petrificado, o meu corpo grande, gordo, pesado, não podia evitar o sacrifício que vinha chegando. Viviane saltou num abraço para cima de Fré, o seu preferido, depois distribuiu um beijinho musical a todos. Quando foi a minha vez, eu já estava submergido em suor. Ela aproximou-se, eu podia ter um ataque cardíaco a qualquer momento, ela aproximou-se, estava perto o meu beijinho quando senti uma mão nas costas. Antes que caísse, me esborrachasse nela a vazar águas, na fracção de segundos, entre as mãos nas minhas costas e a catástrofe a seguir, soube que nunca mais na vida Viviane iria olhar para a minha cara. César, Fré, Patcha, todos os meninos à volta, os rapazes que jogavam vólei, todos os pisos, todo edifício, em instantes, todos se riam de mim em perturbadoras gargalhadas. Viviane limpava o meu suor da sua cara, como quem limpava cocó.
Depois desapareci da terra, passou uma infinidade de tempo e voltei terminado o curso em Aeronáutica Civil na Rússia. Muita coisa morreu-me na memória, com se tivesse mudado tudo de lugar. Não conhecia mais ninguém ou sequer reconhecia muitas casas, entretanto transformadas em prédios de vidro e alumínio. O nosso antigo descampado de futebol foi tomado por um grande hotel. Nunca mais soube da turma e nunca mais quis saber. Passou um ano, tinha um bom emprego, não via ninguém do meu tempo, até àquele inesperado dia. César vinha do outro lado da rua. Era inconfundível a pequenez, o andar atrevido, o sorriso de diabo que ainda existe. Tanto tempo e nada tinha mudado. Ele me viu e estava espantado. Fez logo a cara que fazia quando, no liceu, me via e decidia que seria dia de me aterrorizar. Depois do desastre com Viviane, nunca mais saí para o pátio e em vez disso passava os dias dentro da sala de aula enterrado nos livros. Mesmo assim, como caçador implacável, César não me deixava em paz. Apesar do meu tamanho e do meu peso, era impotente contra as suas palavras e uma turma inteira que o seguia e as meninas todas que viviam ao pé dele. Nada podia fazer. Quando não desenhava uma caricatura minha, arranjava uma piada ou uma partida. Todos se divertiam a minha custa, comandados por César. Mas nada foi mais cruel que o que ela fez com Viviane. Correu o rumor que César tinha levado Viviane para cama. Morri uma metade. Eles andavam agarrados no pátio, na sala e em todo o lado. Eu morria todos os dias. Estava ele ali, dirigindo-se para mim, alegre, como se nunca tivesse acontecido coisa alguma. Apertou-me a mão sinceramente. Deu umas palmadas nos ombros, sempre a rir, sempre alegre, cordial, educado. Pude sorrir um pouco também e, sem sentir, sem mesmo saber porquê, perguntei:
- Viviane?
- Ah, Viviane! – César parou um pouco, tornando-se repentinamente sério. Um pouco gasta – disse.
Um pouco gasta? Um pouco gasta?? Fiquei a pensar. Depois de tudo, as únicas palavras que César consegue dizer sobre a Viviane é “gasta”?! Trocamos telefones.
- E onde ela está? Tive tempo de perguntar
- Ninguém sabe ao certo, mas dizem que costuma aparecer num bar em Monte Sossego.
Despedimo-nos. Não ouvi mais o resto. Um pouco gasta. Fiquei com a frase na cabeça por dias. Depois decidi que queria vê-la. “Um pouco gasta” soava a problema. Saía do trabalho e antes que anoitecesse, rumava Monte Sossego, perguntando a todos por Viviane: bonita, esbelta, loira, olhos assim – tentava imitar o circunflexo dos seus olhos – dentes perfeitos, sorriso bonito, etc. Mas ninguém se lembrava de uma tal descrição. Ninguém conhecia uma pessoa com o nome de “Viviane”. Andei assim tantos dias. Depois entrei num bar, para parar um pouco e recapitular os sítios por onde ainda não tinha ido. Tomando um café, numa mesa num canto, parecia impossível mas era ela, ou o que restava dela. Restava-lhe os ossos dos braços e da perna, a cabeça se aguentava por um espeto e não tinha mais olhos, só dois buracos. Era ela. Ninguém mais tem dedos dos pés assim perfeitos, mesmo que desfeitos em ossinhos. Era ela de certeza.
- Viviane! Chamei baixinho para não a assustar, mas mesmo assim ela se sobressaltou, se calhar porque ninguém a conhecia e ninguém a chamava pelo nome. Olhou-me do fundo dos buracos dos seus olhos, levantou-se atropelada para fugir, mas tropeçou em si própria, indo a cair. Segurei-lhe. Abraçou-me como se estivesse morrendo num mar. Chorou, inaudível. Afastou a cara para poder ver-me. Beijou-me a boca com a sua boca, um pedaço de tecido podre e seco. Deitou-se de novo nos meus ombros, chorou mais, inaudível. Não falava e talvez nem tivesse forças para tal. Paguei o café, saí com ela pendurada no ombro, aguardei um táxi e a levei para casa. Ela não se opunha, talvez porque não tivesse forças para nada. Ao entrar em casa, viu o meu colchão no chão e precipitou-se para cima dele, estatelando-se. Afofou-se nos lençóis, gemeu e dormiu imediatamente. Nessa noite deitei-me ao lado dela, lembrando do seu belo bumbum que desapareceu nas calças rotas que trazia. Cheirava a gente de rua. Tinha o cabelo em postas de sujidade, mas ainda assim mantinha o perfil de deusa e os belos pés. Dormiu quinze horas seguidas. Levantei-me no outro dia, fui trabalhar e, à hora do almoço voltei para casa e ainda ela dormia. Depois acordou lentamente, tinha dois olhos de novo, olhou-me, sorriu, sentou-se no colchão envergonhada. Comecei a preparar uma comida.
- Tens fome? Não respondeu. Toma um banho, tens ali água quente. Não respondeu. Viviane, não me interessa o que se passou contigo, deixa-me ajudar-te. Fica uns dias cá em casa. Não faz mal em te ter por cá uns dias. Terminei a comida. Tens fome? Não respondeu. Pus comida e fui me sentar ao lado dela. Tudo bem? Perguntei junto com uma mão no joelho dela. Ela rejeitou-me e afastou-se. Pedi desculpas, comi rápido e saí de casa. Tens tudo o que precisas. Fica à vontade. Viviane ficou em casa vários dias. Dormia metade do dia. Aos poucos tomou banho e comeu. E falou, finalmente:
- Obrigada, Zé!
Nesse dia, tive uma alegria a inundar-me, como o sol, o ar e o mar ao amanhecer. Aquela única palavra foi a música mais bonita que ouvi ao longo de quase todos os anos da minha vida. Viviane passou a sorrir, comer. Eu tinha uma incrível urgência em voltar para casa ir estar com ela. Começou fazer coisas em casa. Sentávamos à mesa e contava-lhe as minhas aventuras na Rússia. Ela ria. Beijou-me, de lábios molhados e doces. Beijou-me muito. Nunca senti nada tão quente a entrar dentro de mim. Amamo-nos. Aconteceu-me um milagre. Ia trabalhar e voltava para casa a correr e tomava-lhe de beijos imediatamente. Ficávamos horas deitados, amando. Com o tempo ela passou a tratar-me por “Tchuk” que eu adorava. Ela ficava em casa, arrumava tudo, fazia a comida. Eu tinha pressa em chegar em casa e sentar-me à mesa com Viviane.
Mês após mês, com os vencimentos, comprámos sofá, cama, televisão, plantas. Mudámo-nos de casa três vezes, até encontrar uma que agradasse a Viviane. Comprei-lhe roupa, bijutarias, viajámos. Em pouco tempo, Viviane era de novo uma linda mulher, a minha mulher. Saíamos e os homem olhavam-na descaradamente. Mês após mês, Viviane ficava em casa, fazia a manicure, o pedicure, perdia-se em revista de moda, via todas as novelas. Saíamos e os homens olhavam-na sempre descaradamente. Não podias vestir outra coisa? Irritei-me a certa altura. Ela não gostou da reprimenda. Discutimos. Passamos a discutir por tudo. Chamava-me de estúpido e eu chamava-lhe de cabra. Engrossamos as discussões e culminou com ela a chamar-me de porco. Um raio partiu-me ao meio. Nunca pude esquecer o seu gesto a limpar o meu suor da sua cara como quem limpava cocó. Atravessei-lhe uma palmada na cara com tanta força que ela teve três dias de pescoço torto. Chorou uma ribeira. Chamou-me de tudo a gritar. Gritava de profunda dor. Mortifiquei-me de arrependimento.
Nos dias que se passaram, Viviane fez-se uma pedra de gelo. Não olhava mais para mim. Fazia tudo como dantes, comida, arrumação da casa, mas não olhava mais para mim. Começou a sair sozinha. Chegava tarde. Eu não podia dormir enquanto ela não chegasse. Andava irritado, quase que a tornava a bater, o que ela percebeu e olhou para mim com um terrível olhar inexplicado. Saia todos os dias. Não me olhava. Comíamos as refeições em sepulcral silêncio. Cada um do seu lado. Só o tilintar das talheres e dos pratos.
- Tou grávida, Zé.
- Meu filho? – explodi – grávida do meu filho Viviane?
Pulei da mesa, agarrei-lhe e beijei-lhe a boca apática. Não me importava com nada. Ia ter um filho. Disse a todos no trabalho. Paguei cerveja a todos. Ia ter um filho!
A barriga começou a crescer. Viviane continuava a não me falar, embora andasse pelos cantos a cantar e a acariciar a barriga. A barriga cresceu. Fui a todas as consultas. Passei a fazer todo o resto dentro de casa. Levava Viviane a andar. Não me falava mas permitia que eu a levasse abraçada. Tinha ansiedade em ver o meu filho nascer, o que aconteceu num Domingo. Quando vi aquele ser, do tamanho de um rato, não me contive em lágrimas. Era o homem mais feliz do mundo. A casa encheu-se de gente para o sétimo dia após o nascimento, o dia de guarda-cabeça. Comprei toneladas de cerveja, vinho, mandei cozinhar para cem pessoas, havia de tudo. Cumprimentava a todos, bebia, embebedava-me. Quando se aproximou a meia-noite, o povo entrou-me para dentro do quarto, Viviane ainda cambaleante, levantou-se, pegou o bebé ao colo e ficamos no meio de uma grande roda, com direito a violão. Abracei a minha mulher, balançava para os lados, bêbedo mais que alguma vez na vida. Ergui a taça de vinho no ar.
- Não importa absolutamente nada! O filho é meu filho!
César Schofield Cardoso

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