É terça feira e como sempre passo pela rua estreita.Vejo sr Antonio que me acena do lado oposto ao que sempre desço e decido atravessar para o saudar. Então rapaz, que fazes por aqui? Trocamos meia duzia de palavras e cumprimentos aos demais familiares e despedimo-nos. Continuo meu percurso. Na verdade estou meio chutando lata quando chuto uma gaveta. Uma gaveta? Meus olhos estavam fitos neste objecto. Uma gaveta prostrada no meio do passeio. Obviamente é estranho, olho para um lado, a seguir para outro procurando algo ou alguém a quem perguntar, porém nem viva alma. Detenho-me sobre a gaveta. Não há dúvida de que é de material nobre, para além de muito bem trabalhado. Os puxadores, feitos por um ferreiro fazem-me lembrar os que a minha avó tinha na cómoda do quarto de hóspedes. Por esta altura já vai longe a minha curiosidade, só tenho tempo para certificar-me de que não vem ninguém, para então explorá-la. Vejamos o que tem dentro: um par de óculos com uma perna só, um soutien cai cai número 36, um cinto de ligas tamanho 42, um livro de bolso de poemas e prosa e …hum cartas, cartas sem remetente, sem destinatário, muitas cartas. Mexo, remexo quando algo desperta ainda mais a minha atenção. Um pano de seda vermelho bordado a dourado com um papel tão fino quanto bem dobrado. Estou na via pública, isto é, propriedade pública e, sem me deter mais em pensamentos ou direitos de posse de terceiros ou quartos, num impulso desdobro o papel e vejo que tem algo escrito. Um recado? Um pedido? Dizia em letras gordas:
POR GENTILEZA, OLHE PARA CIMA!
Quem terá escrito estas linhas? Há quanto tempo?
Dou por mim com o pescoço esticado para cima, vejo uma senhora idosa que em silêncio me acena com um lenço branco. Sem pensar respondo ao aceno. A senhora com um sorriso, diria de paz, com uma vénia se despede e fecha a janela. E Eu? Eu sigo o meu caminho pela rua estreita como sempre faço todas as terças feiras.
Vera Cruz
POR GENTILEZA, OLHE PARA CIMA!
Quem terá escrito estas linhas? Há quanto tempo?
Dou por mim com o pescoço esticado para cima, vejo uma senhora idosa que em silêncio me acena com um lenço branco. Sem pensar respondo ao aceno. A senhora com um sorriso, diria de paz, com uma vénia se despede e fecha a janela. E Eu? Eu sigo o meu caminho pela rua estreita como sempre faço todas as terças feiras.
Vera Cruz
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