domingo, 14 de fevereiro de 2010

O Anúncio

“Para reabilitação concurso da Praça Alexandre Albuquerque com Silva Eunice a engenheira.”
Este foi o anúncio que o Secretário Municipal, o cidadão Zeca Pimpim, mandou publicar no mais lido jornal da ilha.
O que teria passado pela cabeça daquele respeitável cidadão, Nho Zéca Pimpim, sobrinho neto de Nho Padre Feliciano e de D. Maria da Purificação Soares de Oliveira, professora de catequese?
Nha Bitina do Sr. Cristovão Alves Ferreira disse que a coisa se dava ao facto das “fuscas” valentes que Zéca Pimpim tomava secretamente na companhia dos seus pombos, no terraço da casa. Nho Zeca Pimpim afogava as suas mágoas de ser filho sem mãe conhecida e do Presidente da Câmara, Sr. Pedro Maria Soares de Oliveira. Registar José Pirino Soares de Oliveira tinha sido às custas de muito pedir do Nho Padre Feliciano e do medo do sobrinho em enfrentar essa acusação diante do grande pai, quando este o chamasse. Para além disso, não valeria a pena manchar a reputação do Sr. Presidente com questões de paternidade, e o acto de reconhecimento até podia ser entendido como um gesto de piedade para com aquele menino de cabelo espetado a quem lhe tinha dado o apôdo de “Pimpim”.
D. Porquéria, vendedora do queijo de cabra mais afamado da cidade, tinha outra versão: Pimpim bebia no terraço com os pombos porque na sua juventude não pudera casar com Miluzinha, filha de Nha Cuzinha, prostituta de Lombe. Nho Padre Feliciano e D. Maria da Purificação tinham pago a viagem de Milúzinha para longe do rapaz. Zéca Pimpim desconfiava que os tios tinham dedo nessa história mas não tinha como provar. A versão oficial era de que Miluzinha tinha fugido num barco a vapor com um turco ou holandês, dependendo da malícia do relator.
Djosa Cagdim estivador, nas suas noites de porto, escancarava a boca e reclamava a paternidade de Zéca Pimpim; nunca ninguém lhe dava crédito, nem de dinheiro nem de confiança. Djosa Cagdim não passava de um estivador filho de ninguém que se embebedava sempre que havia vapor novo no porto e para além disso falava trocado. Não se sabe se o falar trocado lhe vinha do mau grogue que sorvia como água, nas noites de navio novo no porto, ou de algum problema de cabeça.
Zéca Pimpim era sempre muito calado, característica que Nho padre atribuia à inteligência sisuda do sobrinho. Em pequeno, uns meses depois de passar a morar em casa do Presidente, Nha Maria da Purificação tinha notado que o sobrinho não falava direito, mas como era filho de Sua Excia. O Sr. Presidente da Câmara, cedo Nho padre Feliciano tomara providências para que o sobrinho tomasse aulas em privado, com o seu afilhado e ajudante de missa, Sigesmundo.
Zéca Pimpim crescera entre a igreja, a salinha da sacristia, a varanda interna da sala de costura de D. Maria, na casa grande, os chocolates “Cut burry”, que a tia lhe dava de cada vez que conseguia dizer uma palavra com mais de cinco sílabas, absorvidas directamente dos livros de Eça de Queirós que D. Maria não assumia que consumia, só o Primo Basílio lera mais de sete vezes e mais de vinte as passagens que descreviam os encontros proibidos de Basílio e Luísa. Na verdade se procurarmos um culpado por Zéca Pimpim ter-se apaixonado por Milúzinha, encontrá-lo-iamos naquela varanda da casa grande onde, entre o livro de rezas e os de Eça, Zéca Pimpim passava as tardes. Esta era a versão da criada Joaninha “de oi pelód”. Esta versão de “Joaninha de oi pelód” tem muito que se lhe diga, pois a criada não casara porque D. Maria fez de tudo para afastar o pretendentes, que na verdade não eram muitos, já que para além de “oi pelód”, Joaninha coxeava de uma perna e com os seus trinta anos tinha outras peladas.
Nunca se soube a verdade verdadeira da “desfala” de Zeca Pimpim, o certo é que José Pirino Soares de Oliveira desaparecera dois dias depois daquele maldito anúncio. Uns viram-no no porto a embarcar num navio de carga para a Holanda, outros viam-no acenar do cume de Monte Clara, no dia dos mortos, e outros cantam histórias de Zéca Pimpim em bares de estivadores, que Cagdim deixara de frequentar por falta de ânimo.
Verdade verdadinha só mesmo o facto de no dia do fatídico anúncio, D. Maria ter sido tomada por um ataque de gases; Nho padre estava numa extrema-unção lá para os lados de S. Paulo e Sigesmundo lia nas entrelinhas de Joconda o pecado da carne.
Naquele dia ninguém pôde valer à escrita de Zéca Pimpim.


Vanda Cullen

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