segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O quem é quem da 1ª edição do Workshop de Escrita Criativa: genial!

A Tecelã
A tecelã decidira, naquele fim-de-semana, que teria a tapeçaria pronta em duas semanas. A cada cinco dias úteis, como manda a burocracia das coisas, metade da tapeçaria estaria pronta. A obra tinha de aparentar um resultado contemporâneo. Não que a costureira fosse adversa ao toque da tradição: pelo contrário, sabia que o que existe actualmente não é senão um aglomerado de actualizações e interpretações do tradicional. No entanto, ela era uma mestre. Uma mestre das várias facetas da contemporaneidade. Mas a isso…já lá vamos.
Começa por alinhavar e separar, cuidadosamente, os utensílios da sua caixa de Pandora. Precisa de, exactamente, onze ferramentas: um espaço amplo, um modelo visual, uma folha de papel para esboçar o desenho, um tear, dedal, fita métrica, uma agulha grossa, uma agulha fina, um pente, vários novelos de lã em cores criteriosamente seleccionadas, linha fina para os remates, uma tesoura e, por fim, como ferramenta não material, precisa da crítica do público que, como sempre, nem sempre é de opinião fundamentada.
A tecelã começa a urdir a sua teia de aranha, literalmente. Tem como árdua tarefa, a de ordenar cromaticamente as cores dos vários novelos de lã. Ela queria produzir um tapete como o do filme Gabbeh. Simples, mas com várias histórias encaixadas. Mas a isso…já lá vamos.
No início recorreu ao apoio do modelo visual: é que todo o mestre tem um mestre que receia, que idolatra, por cima de quem quer passar (em alguns casos, por baixo) ou a que muito simplesmente se quer igualar. Mas esta mestre apenas quer desdobrar o modelo do seu mestre em várias singularidades que descobre só. O espaço amplo, a primeira ferramenta, está em osmose com ela: tem papéis, rolos de jornal, um lugar alto de onde projecta o modelo visual, tem a candura dos seus olhos, o cheiro a antigo remodelado; cheira a lã, a papel meticulosamente cortado.
Dá início. O seu tear parece desconjuntado, apesar da simetria das partes. Aliás, esta simetria é apenas uma ilusão de óptica. É de madeira forte, castanho-escura, com algumas lascas que rapidamente poderão incendiar um dedo menos avisado. Já prevenida para o efeito, a tecelã mune-se do dedal, pequenino, redondo, de prata. Um achado da memória, deixado pelo único homem que lhe fadou a sorte em saudade dourada, com o remate final de um nó de marinheiro. A fita métrica, muito precisa, com os números de trás para a frente ou da frente para trás – subjectiva, portanto, dependendo do ponto de vista ou de quem sobre ela se debruce voyeuristicamente. É o suporte discreto de qualquer tecelã: remata as medidas da tapeçaria – the best for last.
As agulhas são as ferramentas que mais trabalho dão à nossa tecelã. São duas doidas antónimas, que dão os nós invertendo os pontos. A agulha mais grossa, a que mais intimamente se relaciona com o dedal, tem muita noção da sua importância no processo. Sabe que sobressai, que deve sobressair por ser indispensável…no entanto, tal como a cigarra se esquece do inverno (mas só nas fábulas em que se dá mal), assim a agulha grossa se esquece de que pode ser substituída, por outra agulha grossa e muito discreta. Ainda assim, esta agulha sabe (e tem consciência disso) de que sem ela, a tapeçaria não anda para a frente. A agulha mais fina, é a formiga desta fábula muda (a essa, coitada, o La Fontaine deixou-lhe um testamento de eterno trabalho). A não esquecer: apesar de ser a mais pequena é a que mais pica, ironicamente. Pode fazer um pequenino estrago à superfície da pele, para se saber que ela está lá, que está para o que for preciso. Os novelos de lã lembram cabelos muito negros, muito brilhantes, que encimam uma torre de marfim. Os reflexos da luz neste novelo desdobram-se em várias cores, as cores que a tecelã escolheu.
Já a linha fina é discreta, de cor indefinida, mas que muito se identifica com a agulha fina, as grandes cúmplices desta tarefa. É distinta pela finura, mas forte nos remates. Surge, por fim, a tesoura, sempre no discreto corte e costura, de língua afiada, mas indubitavelmente indispensável. A melhor amiga das Parcas, tem sempre a palavra final.
Já o pente tem uma função ingrata, mas ainda assim, fora do vulgar: ele escova os cabelos longos de uma sereia colectiva que são os novelos de lã. De vez em quando põe ordem na casa, morde a teia do tear com força e determinação, com ar de quem quer lei e ordem. Engasga-se algumas vezes, mas depois de uma enérgica cuspidela, retoma a compostura. É fiel.
Chega de descrição que está na altura de começar a narração. O tapete começa, lentamente, a ganhar a forma monotonamente quadrada. Linha acima, linha abaixo, o azul e o preto em diálogo. A agulha grossa luta teimosamente com o dedo da tecelã que cansada, por vezes , da insistência da agulha teimosa muitas vezes apressada no toque, resolve fazer o que tem de ser feito à mão, sem cerimónia, como quem come marisco com as mãos e lambe os dedos, um a um, diante de uma qualquer individualidade importantemente inútil. Termina as primeiras linhas de um desenho que oscila entre o impressionismo e o expressionismo. Chama pela impertinente agulha mínima, que lança umas gargalhadas agudas por cima dos novelos de sereia. O pente entra a cada fila de lã ordenada, queixa-se do trabalho mas lá vai prosseguindo, aos tropeções loucos, cospe, engasga-se mas lá vai penteandando (desculpe-me o tecelão Mia Couto, ele é que gosta destes inventarismos). A linha fina vai terminando, é a pausa deliciosa nesta grande narração de lã. Nova fileira, novas ideias. Fernando Pessoa vai piscando o olho, divertido, afagando o cabelo da tecelã e segredando-lhe ao ouvido que «Deus quer, a obra nasce e a tecelã bem pode ir urdindo…ah, pois é». O que é certo é que a obra nasce mesmo, a ponto e vírgula de agulha, a vírgula de novelo e a ponto final que sabe a parágrafo. Nova fileira, novo parágrafo. A primeira semana termina, a ampulheta dita severamente o tempo, em compasso de espera com a tesoura.
Nesta tapeçaria nada funciona ao acaso. Ela está a tornar-se num todo absolutamente indivisível. Até os cheiros e os sabores, em sugestão, contribuem. O trinco numa sandes que a ansiedade não deixa terminar, deixa no ar um cheiro suspenso a pão com manteiga. Ao fundo da sala, a Mãos-de-Fada fuma, mais um instrumento que dança nos dedos da tecelã, esvaindo-se num fumo que, para a tecelã, é o arco-íris das cores dos novelos de lã. O cheiro a cigarro e uma migalha do tamanho do saco roto de uma formiga transformam esta tapeçaria, agora a metade, num aglomerado polifónico de fios, cores, cheiros e sabores. A tecelã descansa.
No início da segunda semana, todos os utensílios a postos, surge o conflito. A tecelã, ainda de olhos semi-abertos de ternura, apalpa a sua tapeçaria. Percorre-a delicadamente com os dedos. Não acredita nas fissuras que nela encontra. Descerra os olhos definitivamente. Agora observe-se: «eu só cortei o que devia» Não é, possível, pente, o que sentiste da última vez que escovaste os fios. Não se vê logo? A tapeçaria estava a meio, não se lembra tecelã? A agulha fina solta uma irritante gargalhada: fio fino, fio grosso….medita. Agulha grande, tu melhor que ninguém, conheces os dedos da Mãos-de-Fada – que fizeste? Ironicamente, a agulha fina pensa: «As aparências enganam…agulha grossa só faz mossa». Agulha grande: «sei o que fiz, a minha consciência acusadora o diz». Clímax: a tesoura, impune, conhece os seus traços. Tecelã: olha o que te fez a opinião pública…Corte e costura, a tua tapeçaria está desfeita. Desfeita em lágrimas está a tecelã…«Meu Deus, que fiz eu?!». Stranger than fiction: parece que o narrador omnisciente desta história, armado em demiurgo, com um gole de uísque da opinião pública, na noite de descanso da tecelã, cortou-lhe a tapeçaria toda. Divertiu-se, às escondidas, a destrançar a colcha de Penélope. A omnisciência das coisas: ver sem ser visto, acusar sem ser acusado, ser juiz soberano da narração. A omnisciência não merece a nossa confiança.
Depois do primeiro impacto, a tecelã heterodiegética toma uma decisão: a autora sou eu. Quem, como, porquê, quando, porque…a impressão das coisas está na sua mão. O seu tapete é expressionista, percebeu, opinião pública?! Quem manda aqui é o autor e o autor sou eu. Nova tapeçaria…«Tear cineasta, pronto?» Tear cineasta: - Dedal de prata, trepa-lhe dedo acima. Dedal de prata heróico: - Fita métrica, desenrola essa timidez de caracol e vamos às novas medidas. Fita métrica de pele fina: - Agulha grossa, entra já a contra-relógio. Agulha grossa, programadora de sonhos : Agulha fina, time is Money – pega na caneta. - Agulha fina de imaginação fertilizada: é para já, ponto parágrafo, a cada linha que escreveres eu remato com nó de marinheiro, pente mágico escova! – Pente, palhaço feliz da vida: agora é a hora da verdade – vamos esmagar o inimigo público, novelos de lã em adjectivos, desenrolem as cores. Novelos de lã em sonhos de timidez: que os meus cabelos se derramem nas cores da tapeçaria de Penélope, linha fina, estás comigo? Linha fina, de sorriso límpido: estarei contigo em simbiose, até que a tesoura nos separe. Tesoura, a sereia da polifonia: terei a última palavra. Neste momento, Fernando Pessoa, agora tenso, não pisca o olho à tecelã: aperta as mãos de Caeiro, Campos e Reis…precisa de uma força de horóscopo para mostrar à tecelã que esta, sem saber, prepara uma Ode Triunfal. A tapeçaria desenrola o seu olhar em frente à opinião pública: numa mescla de descrições, narrações e narratários loucos (entre eles Sá-Carneiro, o louco são), de heterodiegeses indigestas e homodiegeses esquizofrénicas, é o frémito da loucura, o vómito da criação. A tecelã urde uma tapeçaria única, feita de ventos e marés, de correntes e contra-correntes. Foi o Salto. O Salto da criação que a projectou. No sábado do julgamento da opinião pública, a tecelã vence: desenrola uma tapeçaria mágica, que não voa como o tapete de Aladino, mas que atravessa olhares ávidos de páginas escritas, que incomoda, que traz o pânico. Ela é a mensageira da paz, cuja tapeçaria traz a guerra. A Guerra Fria interminável do autor e do leitor: o autor que aprisiona, o leitor que clama pela sua liberdade de interpretação. É a metáfora da criação. A tecelã dá as mãos a Álvaro de Campos, e finda a obra, ambos exclamam:
À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!


Deve dizer-se, em abono da verdade, que a tecelã foi pouco descrita. Chamámo-la inicialmente, de a mestre da contemporaneidade. Como toda a boa tecelã, ela começou por urdir a sua teia. Jorge Palma tem uma balada que se chama «Essa miúda». Como já não temos palavras para a descrever, deixamos que seja Jorge Palma a fazê-lo: “[essa miúda]faz-te acreditar que o sol é um presente que a aurora traz principalmente para ti”, não esquecendo que “e enquanto inventas passos novos, ela vai arquitectando uma teia para te aconchegar”. Cuidado, portanto, com esta tecelã…
E já agora: não fomos nós, narrador omnisciente, quem lhe cortou a tapeçaria. Deixamos-lhe, a si, caro leitor, o prazer dessa descoberta. Criative-se!

Flávia Ba

2 comentários:

  1. Um dos melhores momentos da minha vida... esta oficina... Este texto é sem dúvida uma peça genial. É um prazer lê-lo... cada palavra, frase, parágrafo... como a "Deusa" conseguiu conduzir a sua escrita.
    Obrigado Flávia...

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  2. Sublime...
    São palavras que se movem elegantemente e se vão articulando na construção grandiosa de uma ode cheia de musicalidade para os nossos ouvidos e os nossos sentidos.
    É uma honra ter tido comigo, ao meu lado,partilhando comigo... alguém tão rico e no entanto tão simples...

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