Fica-se a vê-la a atravessar o terreiro a passo seguro atrás dos outros algemados. O policial, indeciso entre os sublinhados de Mena, trai-se a si mesmo. Vai atrás dela e pega-lhe não na mão, mas na algema da mão esquerda, bem da sua preferência. Salazar, por detrás, segreda-lhe: «os sublinhados do sistema, os sublinhados da Situação. Resolve a tua Situação com Mena». O policial arde por Mena, com vontade de arder em auto-de-fé com ela, entre lençóis de fogo. Começa a imaginar-se no chão sujo da cela, fria, a escorrer delações pelas paredes. Depois deste pensamento não hesita. «Espere, Mena». Mena vira-se para trás e cospe-lhe eroticamente no olho. «Sim, fui eu quem pôs os sublinhados no livro do Cabo. E sabe que mais, meu palerma? Gostei».
É desta. Aguarda, ansioso, que os outros algemados atravessem e puxa-a pelas algemas, em jeito de tango argentino. Em busca da chave da cela. Arrasta-a nesse movimento de circo, ele, o trapezista que a vai deixar cair, ela, a trapezista que sabe que por baixo não há rede. Chegam à cela. Ele larga-lhe a algema, senta-se no chão de pernas abertas. «Atire-se de encontro à parede». Ela obedece. «Agora, esfregue-se nela de alto a baixo». Ela obedece, antevendo um desfecho quente. Insinua-se à parede, de lado, percorre-a com cada poro do corpo, sem olhar uma única vez para o policial. «Agora vire-se para mim». Ela obedece, de olhos fechados. «Dispa-se». Ela despe-se, sempre de olhos fechados. O policial, cada vez mais in and out, sem output visível. Saca da smith e ela bem o sabe. Abre os olhos.
O policial levanta-se, resoluto e impoluto, e caminha para ela, lentamente. Não lhe toca uma única vez. «Vou sublinhar-lhe a testa, minha cabra desejável. Mostre lá o lápis azul com que pinta os olhos…não era isto que dizia?». Ela: «Mostre-me você o lápis vermelho. Corrija-me o trabalho de casa». A esta provocação ele não resistiu: vai enfiar-lhe um tiro na testa, para terminar a Situação. Happy end: roleta russa. Grande jogo. O jogo mais erótico de sempre: a excitação do entre a vida e a morte num breve segundo de disparar de gatilho. Mena agora já não cheira a vontade de sexo, cheira a vontade de mijar, de trepar pelas paredes. Segundo tiro: nada. Andam neste jogo durante cinco minutos. Mena escorrega parede abaixo e o policial finalmente abre mão do jogo. Empate. “E manda-a seguir com um empurrão. Fica-se a vê-la a atravessar o terreiro, mas agora a passo inseguro atrás dos outros algemados.” «Foda-se, cobarde!», pensa o policial.
É desta. Aguarda, ansioso, que os outros algemados atravessem e puxa-a pelas algemas, em jeito de tango argentino. Em busca da chave da cela. Arrasta-a nesse movimento de circo, ele, o trapezista que a vai deixar cair, ela, a trapezista que sabe que por baixo não há rede. Chegam à cela. Ele larga-lhe a algema, senta-se no chão de pernas abertas. «Atire-se de encontro à parede». Ela obedece. «Agora, esfregue-se nela de alto a baixo». Ela obedece, antevendo um desfecho quente. Insinua-se à parede, de lado, percorre-a com cada poro do corpo, sem olhar uma única vez para o policial. «Agora vire-se para mim». Ela obedece, de olhos fechados. «Dispa-se». Ela despe-se, sempre de olhos fechados. O policial, cada vez mais in and out, sem output visível. Saca da smith e ela bem o sabe. Abre os olhos.
O policial levanta-se, resoluto e impoluto, e caminha para ela, lentamente. Não lhe toca uma única vez. «Vou sublinhar-lhe a testa, minha cabra desejável. Mostre lá o lápis azul com que pinta os olhos…não era isto que dizia?». Ela: «Mostre-me você o lápis vermelho. Corrija-me o trabalho de casa». A esta provocação ele não resistiu: vai enfiar-lhe um tiro na testa, para terminar a Situação. Happy end: roleta russa. Grande jogo. O jogo mais erótico de sempre: a excitação do entre a vida e a morte num breve segundo de disparar de gatilho. Mena agora já não cheira a vontade de sexo, cheira a vontade de mijar, de trepar pelas paredes. Segundo tiro: nada. Andam neste jogo durante cinco minutos. Mena escorrega parede abaixo e o policial finalmente abre mão do jogo. Empate. “E manda-a seguir com um empurrão. Fica-se a vê-la a atravessar o terreiro, mas agora a passo inseguro atrás dos outros algemados.” «Foda-se, cobarde!», pensa o policial.
Flávia
(reivenção do desenlace de "Balada da Praia dos Cães", de José Cardoso Pires)
Excelente!
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