segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Textos a partir de outros textos: a fabulosa arte da reinvenção

Conheci Ricardo nos meados dos anos sessenta, num desses encontros de jovens/artistas à procura de emoções. Foi uma empatia mútua que logo se transformou numa grande amizade. Ricardo escrevia na época criticando o regime com os seus poemas. Foi numa noite em que estávamos numa reunião de amigos que conhecemos a Luna. Jovem, bela e muito extrovertida. Apaixonei-me de imediato pela bela Luna. Esta, de início, correspondeu ao meu amor mas, com o tempo, afastou-se. Tinha-se apaixonado pelo Ricardo...
Começa para mim um período de completo desequilíbrio e procuro então encontrar na bebida o lenitivo para a minha dor. Ricardo vê no meu sofrimento a ocasião para se declarar: está completamente perdido de amores mas não sabe como me dizer: teme a minha reacção. É num dia em que eu havia bebido até à saturação que Ricardo vê a ocasião para se abrir comigo. Abraça-me e beija-me contra toda a minha estupefacção.
Luna, entretanto, estava decidida a defender o seu amor e fora à minha casa onde sabia encontrar o Ricardo. Tinha de o convencer do seu amor. Estava disposta a tudo.
Entra e deparando-se com a cena do Ricardo beijando-me, atira-se a ele com força, esmurra-o, empurra-o e ele cai embatendo com a cabeça em qualquer objecto. Ricardo jaz morto no chão…

Luna não acredita no que os seus olhos vêem. Tresloucada sai a correr, fugindo da horrenda visão. A polícia chega e encontra-me abraçado a Ricardo, o corpo num vaivém e os olhos fixos no nada.
Acusam-me de ter assassinado o Ricardo e o meu mutismo é total. Passo dez anos na prisão…
Alice
(a partir de A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro)

Rosa Cabarcas pôs mãos à obra na procura da virgem adolescente que o seu amigo “sábio triste” lhe pediu para uma noite de amor louco no dia dos seus noventa anos. Chamou Miguelina, pedindo informações, e ela indicou-lhe mais três pessoas que talvez conhecessem uma virgem adolescente. Ligou para todas mas todas disseram que não tinham a mínima ideia, pois já há muito não ouviam falar disso.
- As meninas já não esperam, perderam a paciência!
Desanimada Rosa Cabarcas tentou Maria das Mercês que vivia no bairro cigano de Guan. Maria das Mercês rondava os setenta anos, tinha tido uma casa de Lanterna mas agora dedicava-se a ajudar a criar os netos.
- Olá Mercês, sou a Rosa!
( ultrapassadas a troca das primeiras impressões entre duas pessoas que há algum tempo não se viam)
- Preciso de um favor teu, Mercês: uma virgem adolescente.
Poucos minutos depois ligou ao “sábio triste” e informou-o de que o seu desejo seria satisfeito.
Mafalda era esguia, coxas que começavam a arredondar, cintura fina que já se desenhava, os seios, quais botões de rosa, aguardavam o alvorecer para desabrochar. O cabelo negro, os olhos cor de mel, debruados de pestanas longas, denotavam uma tristeza da alma.
“Sábio triste” veio naquele dia contando comemorar os seus noventa anos como sonhara. Alguma ansiedade, uma alegria escondida, um ar de quem vai ao encontro daquilo a que tem direito.
Mafalda espera, sentada e semi-nua, na ponta da cama, olhinhos amedrontados.
Ele entra, olha a menina que o esperava e sente o tremor que lhe percorre o corpo, diferente daquele que percorre o seu. Pensa na sua vida e o passado correu-lhe na mente como num filme, percebeu a distância que os separava e teve pena dele mesmo antes de sentir pena dela.
Elsa
(a partir de Memória das Minhas Putas Tristes, Gabriel García Márquez)

O grupo estava reunido para traçar estratégias a levar a bom termo: o assalto a um dos principais bancos da capital. A seguir ao comentário de Flávio (o Doutor), relativamente ao atraso de Silvino para aquela reunião, Renato (o Pacífico) atira-se a ele e quase o mata não fosse a intervenção rápida de dois deles... Nisto, ouve-se pancadas fortes na porta. Todos se assustam. Quem será? Por momentos reina a inquietação! Imediatamente, como se o mesmo pensamento tivesse viajado por todas as mentes, houve um movimento de sair e procurar abrigo. Renato (o Pacífico), que era o chefe, fica aflito pois imagina a policia a irromper por ali no momento em que o esquema do assalto ainda não estava todo bem delineado. Flávio (o Doutor), através de gestos, aconselha a sua filha Marieta, que tinha saído do quarto onde dormitava, sem imaginar a tramóia em que seu proprio pai estava metido. Esta, criança ainda, timidamente vai espreitar. Abre a porta e ouve-se uma voz grave a dizer: as duas pizzas encomendadas. Suspiro de alívio geral! Afinal nao era a polícia! Rapidamente, Flávio (o Doutor) recupera as pizzas, paga ao garçon e fecha a porta, depois de bem espreitar para a rua. Sugere, então, que façam um pequeno intervalo para saciarem a fome pois que, desde o dia anterior, nada tinham ingerido. Assim, os esquemas do assalto ao banco ficaram para mais tarde.
Ana Maria
(a partir de Crónica dos Bons Malandros, Mário Zambujal)
Aquela, como tantas outras, tinha sido mais uma execução, não lhe causava espécie alguma de remorsos, cada vez que P marcava P no rosto das prostitutas ou de algum indigente. Sentia-se livre! Sentia-se útil! Trabalhava para manter o sistema limpo sem ser pago. Naquela noite, mais uma noite de caça, ou execução como quiserem, dirigiu-se à zona dos bordéis onde as meninas expunham os seus corpos semi-nus impregnados de perfume barato perceptível ao longo daquela rua estreita com pouca iluminação. Deteve-se a observar atentamente e houve uma silhueta que lhe chamou a atenção! O que é que esta ninfa está aqui a fazer? Questionou-se. Não tem ar de puta! Veio só fazer uns trocos? Assim que termina a frase, sente um suave toque no ombro que lhe causa calafrios. Por instantes viaja até à sua infância, aterra na sua cidade natal e vê um filme a preto e branco passar diante dos seus olhos e parar naquele olhar vindo da sua memória a pedir socorro e afundar-se no rio. Aparece-lhe sem pedir licença! Tremem-lhe as pernas! Quase desmaia! Oi gato, não lhe apetece uma cerveja? Está tanto calor! - pergunta-lhe a dona daquele toque perturbador. Pela primeira vez em anos de trabalho sente-se inseguro, desnorteado, confuso e bastante aturdido com aquele simples toque. Já dentro do bar, cerveja na mão! Segunda viagem, esta na espuma daquela estonteante cerveja gelada. Vamos subir! No quarto, ela começa a despir-se enquanto acaricia as pernas de P, subindo até a zona púbica, morde o membro em erecção de P que pela segunda vez se sente desnorteado. Bem, vou acabar com isto duma vez! Fecha os olhos agarra no pescoço dela com força pressionando cada vez mais com aquelas mãos musculadas, e de repente abre os olhos por instantes e aquele olhar fita-o na alma, empurra a rapariga para longe de si e atira-se para o chão em prantos. Ela fica sem saber o que fazer, incrédula com o que tinha acabado de acontecer. Será uma fantasia sexual dele? Atira-se ao chão de imediato, põe a cabeça dele no seu colo, passa-lhe as mãos nos caracóis com ternura enquanto lhe beija a testa. E P chora, chora, berra, quase que grita afogando-se nas próprias lágrimas, soluça compulsivamente. Aquele olhar dá-lhe segurança, sente-se redimido, de volta a casa, vêm-lhe imagens de uma infância com momentos de ternura enquanto sua mãe era viva. A redenção tinha chegado àquele quarto barato foleiro de bordel de esquina. Havia luz naquele inferno. Era a salvação.
Jota
(a partir de A Grande Arte, Ruben Fonseca)

Um comentário:

  1. Os vossos textos estão profundos. De facto, cada um deles demonstrou uma capacidade de recriação de ambientes e de histórias formidável, mantendo os registos originais. Parabéns a todos!

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